A história do Friul: Aquileia, Venzone, Polcenigo e Barcis
Estreia no YouTube: sexta-feira, 30 de outubro, às 19h, horário da Costa Leste dos EUA. Inscreva-se e o episódio vai estar esperando por você.
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Este episódio percorre quatro lugares antigos do Friul, no nordeste da Itália. Começa com a aldeia neolítica do Palù di Livenza, de cerca de 6.000 anos atrás, e depois acompanha Aquileia desde sua fundação como colônia romana, no ano 181 a.C., passando por seu porto fluvial, pelo cerco do ano 238 d.C., pelo piso de mosaico do bispo Teodoro, pelo cerco de Átila em 452 e pelos patriarcas. Em seguida passa à cidade murada de Venzone e suas múmias, a Polcenigo e às nascentes do Livenza, e a Barcis, no Val Cellina. Os capítulos seguintes tratam do domínio veneziano a partir de 1420, do Tratado de Campo Formio, de 1797, do Soldado Desconhecido escolhido em Aquileia em 1921 e de Venzone, reconstruída depois de 1976. É uma história narrada, lenta e tranquila, para dormir, com cerca de 2 horas e 25 minutos.
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Inscreva-se no YouTubeFatos principais
- Agricultores do Neolítico se fixaram na bacia pantanosa do Palù di Livenza, entre Caneva e Polcenigo, há cerca de 6.000 anos, aproximadamente entre 4500 e 3600 a.C.
- Roma fundou a colônia de Aquileia no ano 181 a.C.; três homens dirigiram a fundação: Públio Cornélio Cipião Násica, Caio Flamínio e Lúcio Mânlio Acidino.
- No ano 238 d.C., Aquileia, a maior cidade daquela parte da Itália, fechou as portas para o imperador Maximino e resistiu a um cerco de muitas semanas.
- Logo depois do ano 313 d.C., o bispo Teodoro construiu a primeira grande igreja de Aquileia, cujo piso de mosaico, de cerca de 760 metros quadrados, é o maior piso de mosaico paleocristão do Ocidente.
- Na primavera de 452, Átila, rei dos hunos, atravessou os Alpes e entrou na Itália, e a primeira cidade que ele atacou foi Aquileia.
- O castelo de Polcenigo é citado pela primeira vez em 963, numa doação feita pelo imperador Oto I ao bispo de Belluno.
- Em 13 de julho de 1031, a basílica de Aquileia reconstruída pelo patriarca Poppo foi consagrada e dedicada à Virgem Maria.
- Em 1338, o patriarca Bertrando consagrou a catedral reconstruída de Santo André, dentro das muralhas de Venzone.
- Em 1420, Veneza já dominava todo o Friul, do mar aos Alpes, mas só em 1445 o patriarca renunciou às suas terras de vez, em troca de 5.000 ducados por ano.
- Em meados do século XVIII, os condes de Polcenigo ergueram no morro do castelo um grande palácio em estilo veneziano, atribuído ao arquiteto veneziano Matteo Lucchesi.
- O Tratado de Campo Formio entre Bonaparte e a Áustria, que leva o nome de uma aldeia entre os dois acampamentos, foi assinado em 17 de outubro de 1797.
- Na basílica de Aquileia, em 28 de outubro de 1921, Maria Bergamas escolheu o décimo de 11 caixões idênticos para ser o Soldado Desconhecido da Itália, sepultado em Roma.
- A barragem em arco de concreto abaixo de Barcis, projetada pelo engenheiro Carlo Semenza, ficou pronta em 1954, e atrás dela se formou o lago de Barcis.
- Depois dos terremotos de 1976, Venzone foi reconstruída onde estava e como era, e sua catedral reabriu as portas em agosto de 1995.
Perguntas que este episódio responde
De onde vem o nome Friul?
O nome Friul vem de Forum Iulii, uma cidade de mercado romana da época de Júlio César ou de Augusto, que hoje se chama Cividale. Com o tempo, o nome daquela única cidade se estendeu a toda a região. O Friul fica no nordeste da Itália, no alto do mar Adriático, entre os Alpes Cárnicos e Julianos e as lagunas, e seu povo tem uma língua própria, o friulano.
Por que Aquileia era tão importante na época romana?
Aquileia era importante porque era ao mesmo tempo uma fortaleza de fronteira e um grande porto fluvial. Roma a fundou como colônia no ano 181 a.C. para vigiar a fronteira, e navios mercantes podiam subir o rio Natiso até a cidade. Estrabão a descreve como um mercado para os povos do interior, rumo ao Danúbio, que levavam vinho e azeite de oliva e traziam gado e couros. Era também um dos grandes lugares onde o âmbar vindo do extremo norte era entalhado e vendido.
O que há de especial no piso de mosaico da basílica de Aquileia?
É o maior piso de mosaico paleocristão do Ocidente, com cerca de 760 metros quadrados, assentado na sala sul da igreja que o bispo Teodoro construiu logo depois do ano 313 d.C. Mostra o Bom Pastor, uma Vitória alada e um grande mar de peixes, polvos e golfinhos, através do qual corre a história de Jonas. Depois de apenas uns 80 anos, foi coberto e ficou escondido por cerca de 15 séculos. Um pequeno fragmento foi encontrado nos anos 1890, e em 1909 obras de reparo revelaram que o piso se estendia por toda a igreja; em 1915 ele já estava inteiramente descoberto.
Por que há múmias em Venzone?
Ninguém sabe ao certo por que alguns corpos sepultados sob a catedral de Venzone secaram em vez de se decompor. O primeiro foi encontrado em 1647, e uns 40 vieram à luz ao longo dos séculos; um relato de 1906 diz que só 11 túmulos, todos perto do altar-mor, faziam isso. Antes se culpava um mofo fino, mas em 1983 o cientista americano Arthur Aufderheide não conseguiu encontrá-lo e achou que o solo seco de calcário e o abrigo da igreja eram razões mais prováveis.
Qual é a profundidade da nascente do Gorgazzo?
Ninguém sabe até que profundidade vai o Gorgazzo: mergulhadores já desceram mais de 200 metros sem encontrar o fundo. A nascente fica a cerca de um quilômetro da aldeia de Polcenigo, um pequeno poço fundo ao pé de uma parede cinzenta de rocha, com água gelada de cor esmeralda, turquesa e azul intenso. A uns 9 metros de profundidade há uma estátua de Cristo, que pode ser vista de cima nos dias claros. O Gorgazzo é uma das três grandes nascentes que dão origem ao rio Livenza.
Onde foi assinado o Tratado de Campo Formio?
O Tratado de Campo Formio foi assinado em 17 de outubro de 1797 na Villa Manin, em Passariano, perto de Codroipo, no Friul, como conta a própria villa. Napoleão Bonaparte tinha instalado ali seu quartel-general, enquanto os enviados austríacos ficaram em Udine, e o tratado tomou o nome de Campo Formio, uma aldeia entre os dois acampamentos. Por essa paz, a Áustria recebeu Veneza e a terra firme veneziana, com o Friul. A sala do tratado ainda pode ser visitada hoje.
Como Venzone foi reconstruída depois do terremoto de 1976?
Venzone foi reconstruída por anastilose, que significa recolocar as pedras originais nos seus lugares originais. Depois que os terremotos de 6 de maio e de 15 de setembro de 1976 derrubaram a catedral e boa parte da cidade, operários e voluntários separaram os escombros em vez de levá-los embora. A partir de 1982, mais de 9.000 pedras foram numeradas e catalogadas, e fotografias antigas ajudaram a encontrar o lugar de cada uma. Mais de 9 em cada 10 pedras voltaram para onde estavam, e a catedral reabriu as portas em agosto de 1995.
Capítulos
- 00:00 O Friul ao Entardecer
- 06:22 A Aldeia no Pântano
- 11:52 Uma Colônia na Fronteira
- 17:22 O Grande Porto
- 22:49 Casas, Mosaicos e Oficinas
- 28:20 O Cerco de 238
- 33:48 O Mosaico de Teodoro
- 39:15 Átila e as Cegonhas
- 44:31 Os Patriarcas
- 50:16 Venzone, a Porta do Norte
- 55:49 A Catedral de Santo André
- 1:01:24 As Múmias de Venzone
- 1:06:49 O Castelo de Polcenigo
- 1:12:31 As Nascentes do Livenza
- 1:18:08 Veneza Chega ao Friul
- 1:23:43 Uma Aldeia Tranquila junto à Velha Basílica
- 1:29:30 Cestos e Feiras
- 1:35:14 Rumo ao Val Cellina
- 1:41:03 Colheres de Pau e Longas Viagens
- 1:46:53 O Fim de Veneza
- 1:53:08 Uma Fronteira Através do Friul
- 1:59:03 A Estrada pelo Desfiladeiro
- 2:04:50 O Soldado Desconhecido
- 2:10:10 O Lago de Barcis
- 2:15:04 Pedra por Pedra
- 2:21:06 Luzes sobre o Friul
Fontes
- Livy 39–40, 43 (tr. Roberts, 1905); Strabo 5.1 (tr. Jones, 1923); Herodian, book 8; Historia Augusta, The Two Maximini (tr. Magie, 1924)
- Jordanes, Getica (tr. Mierow, 1915); Procopius, Vandalic War 1.4; Paul the Deacon, History of the Lombards (tr. Foulke, 1907); Ausonius; Julian, Oration 2
- Gibbon, Decline and Fall, ch. 35; H. Brown, Venice (1893); J. H. Rose, The Life of Napoleon I (1902); Bourrienne, Memoirs
- Baedeker, Northern Italy (1913), Austria-Hungary (1911); Murray's Handbooks (1858, 1897); T. G. Jackson, Dalmatia (1887); Encyclopaedia Britannica (1911)
- Sacile e suo distretto (Municipio di Sacile, 1868); G. Marinelli (1877); J. Pirona, Vocabolario friulano (1871); R. F. Foerster, The Italian Emigration of Our Times (1919); The Literary Digest (1906)
- UNESCO, Fondazione Aquileia, Museo Archeologico Nazionale di Aquileia, Comuni di Venzone and Polcenigo, Ecomuseo Lis Aganis, Parco Dolomiti Friulane, Villa Manin, ICOMOS, Treccani
- Wikipedia (English and Italian)
O roteiro foi pesquisado e escrito para o canal e verificado, afirmação por afirmação, com estas fontes. A voz do narrador é gerada por IA (texto para fala).
Créditos das imagens
Fotografias de Barcis e do Val Cellina, de Polcenigo e do Gorgazzo, de Venzone e da laguna perto de Aquileia, tiradas pelo autor; os passantes pequenos e distantes aparecem desfocados. Fotografias, gravuras e desenhos antigos do Rijksmuseum de Amsterdã (domínio público, CC0). Imagens do Wikimedia Commons, de domínio público ou CC0, e com licenças Creative Commons de atribuição de Sailko (CC BY 3.0: mosaicos, basílica e afrescos de Aquileia), Naturpuur (CC BY 4.0: Polcenigo e o Livenza), Stefano Travasci (CC BY 4.0: Andreis), G.F.S. (CC BY 3.0: Barcis, Lago di Ravedis), Stefano Pielich (CC BY 3.0: Villa Manin), worraworra (CC BY 3.0: Tagliamento) e Verity Cridland (CC BY 2.0: âmbar de Aquileia). Pinturas de Luigi Nono (domínio público). Algumas fotos e cenas de ambientação do Pexels (licença do Pexels). Voz do narrador em português: gerada por IA com Chatterbox (MIT), com voz de referência do Kokoro TTS (Apache-2.0). Música: composição original de The Candlelit Historian.
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Olá, e boas-vindas. Esta noite, vamos passar umas horas longas e tranquilas no nordeste da Itália, numa terra chamada Friul. Ela fica entre as altas montanhas e o mar, bem no alto do Adriático.
E vamos visitar quatro lugares antigos de lá. Aquileia, perto da laguna. Venzone, numa passagem entre as montanhas. Polcenigo, junto às nascentes de um rio. E Barcis, uma pequena aldeia no Val Cellina.
Nossa história desta noite é longa. Ela começa com pessoas que viviam em casas de madeira à beira de um pântano, há muitos milhares de anos. Passa por uma colônia romana e um grande porto fluvial, por bispos e patriarcas, cidades muradas e castelos, moinhos e feiras e estradas de montanha. Passa pelo longo domínio de Veneza, e pela chegada de Napoleão. E termina perto do fim do século vinte, quando uma pequena cidade antiga nas montanhas foi construída de novo, pedra por pedra.
Não há nada que você precise lembrar, e nada que você precise fazer. Você pode deixar a história ir passando, como a água lenta de uma nascente sob as árvores. Se você pegar no sono antes do fim, não tem problema nenhum. É para isso que serve esta noite.
O Friul fica no alto do mar Adriático. Ao norte e a leste se erguem os Alpes Cárnicos e os Alpes Julianos. Ao sul, uma vasta planície desce suavemente rumo às lagunas e ao mar. Uma antiga enciclopédia de 1911 descreveu essa planície como "ricamente irrigada pelo Isonzo, pelo Tagliamento e por muitos rios menores". Na estação seca esses rios ficam fracos, mas depois da chuva, ou quando a neve derrete, descem em grandes cheias.
O Tagliamento é o principal rio do Friul. Ele desce das montanhas e se espalha pela planície num largo leito de cascalho claro, dividido em muitos canais. Um manual para viajantes de 1866 chamou seu leito de um verdadeiro "mar de pedras". O cascalho é tão solto que boa parte da água se infiltra no chão, e volta a brotar muito mais abaixo, em nascentes tranquilas.
Mais a oeste, ao pé das montanhas, outro rio nasce de uma só vez, de grandes nascentes de água fria e límpida. É o Livenza. Ele passa pela cidade de Sacile e segue até o mar, e por muito tempo marcou a fronteira oeste do Friul. E lá no alto das montanhas, o Cellina desce pelo seu próprio vale comprido, o Val Cellina.
O nome Friul é muito antigo. Vem de Forum Iulii, uma cidade de mercado romana da época de Júlio César ou de Augusto, que hoje se chama Cividale. Com o tempo, o nome daquela única cidade se estendeu a toda a região. O povo daqui tem uma língua própria, o friulano. E o antigo brasão do Friul mostra uma águia coroada sobre um campo azul.
Nossos quatro lugares estão espalhados por esta terra. Aquileia fica lá embaixo na planície, a poucos quilômetros do mar, à beira da laguna. Venzone se ergue ao norte, onde o vale do Tagliamento encontra um vale estreito chamado Canal del Ferro, na antiga estrada para a Caríntia. Polcenigo está ao pé das montanhas, junto às nascentes do Livenza. E Barcis fica no coração do Val Cellina, junto a um lago de água verde.
Esta noite, vamos conhecer muita gente pelo caminho. Colonos romanos que vieram cultivar uma fronteira, e mercadores que negociavam vinho, azeite e âmbar. Um bispo chamado Teodoro, que deixou um grande piso de mosaico. Patriarcas que governaram o Friul como príncipes, e os condes de um castelo num morro. Mulheres das aldeias da montanha que desciam a pé até a planície para vender colheres de pau. E moleiros e cesteiros, viajantes e soldados, e o povo de uma pequena cidade murada que não a deixou desaparecer.
Algumas das imagens que você vai ver esta noite são fotografias antigas, de um grande museu de Amsterdã. Muitas outras são fotos que eu tirei, em muitas visitas. Foram tiradas em Barcis e no Val Cellina, em Polcenigo e nas nascentes do Livenza, e em Venzone, com algumas em Aquileia.
Então, fique à vontade. Deixe os ombros relaxarem, e deixe a respiração ficar mais lenta. E vamos começar, há muito, muito tempo, num pântano tranquilo ao pé das montanhas.
Ao pé das montanhas, entre as aldeias de Caneva e Polcenigo, há uma bacia baixa e verde. As nascentes do Livenza a alimentam, e a água repousa tranquila entre os juncos. Chama-se Palù di Livenza. Palù quer dizer simplesmente pântano.
Há muito tempo, a bacia era quase toda pântano, com pequenas lagoas e ilhotas. Desde então, parte dela foi drenada. Mas sob o solo úmido, algo ficou guardado em segurança por muito, muito tempo.
Caçadores tinham passado por aqui muito antes. Mas há cerca de seis mil anos, aproximadamente entre 4500 e 3600 antes de Cristo, chegaram pessoas para ficar. Eram agricultores da Nova Idade da Pedra, o Neolítico. E construíram uma aldeia à beira da água, sobre estacas de madeira.
Suas casas eram retangulares, e feitas inteiramente de madeira. Ficavam erguidas acima do chão úmido, sobre centenas de estacas cravadas no lodo mole. Longas vigas de carvalho, de três ou quatro metros, ficavam embaixo como fundações, com furos quadrados que as atravessavam a intervalos regulares, para as estacas passarem. Algumas paredes eram em parte rebocadas com argila, e dentro havia lareiras. Pequenos pedaços desse reboco de argila ainda guardam as marcas das madeiras verticais contra as quais foi pressionado.
Não houve uma só aldeia, mas várias, uma depois da outra, com breves intervalos em que o lugar ficava vazio. Ao reconstruir, ao longo dos anos, eles orientavam as casas de um jeito um pouco diferente, conforme o terreno, o sol, e a subida e a descida da água ao longo das estações. A última construção de todas parece ter sido um pequeno depósito, erguido sobre suas estacas.
Se você pudesse andar por aquela aldeia numa noite de verão, talvez visse a fumaça subindo das lareiras. Em volta do pântano cresciam bosques de carvalho misto, onde viviam cervos, corças e javalis. O povo cultivava e guardava cereais, e os arqueólogos encontraram até o que parecem ser maçãs silvestres secas, e pedacinhos de alcatrão de bétula com marcas de dentes humanos, mascados, talvez, como chiclete.
Também deixaram para trás suas ferramentas. Raspadores e facas de sílex, e pontas de flecha de sílex. Tigelas de boca quadrada, num estilo da época. Fusaiolas, para fiar, e pequenos carimbos de argila, talvez para imprimir cores. E, porque o chão úmido as conservou, coisas de madeira: parte de um remo ou de uma pá, uma vasilha grande, um cabo de machado, uma concha ainda meio entalhada, um bastão de cavar, e uma pequena colher de pau.
Um antigo livro sobre Sacile, impresso em 1868, já diz de Polcenigo que "vestígios da Idade da Pedra foram encontrados recentemente em seu solo." Escavações cuidadosas começaram no início dos anos 1980, e de novo em 2013, mas só uma parte mínima da antiga aldeia foi explorada. Em 2011, o Palù di Livenza passou a fazer parte de um Sítio do Patrimônio Mundial da UNESCO, os Sítios palafíticos pré-históricos em torno dos Alpes, que reúne mais de cem lugares assim em seis países. É o único no Friul.
Muito depois, na Idade do Bronze, a partir de mais ou menos 1800 antes de Cristo, o povo da planície aberta do Friul construiu outro tipo de aldeia. Ergueram grandes aterros de terra em volta das casas, com até vinte metros de largura na base e quatro ou cinco metros de altura. Essas aldeias se chamam castellieri. Ficavam a uns oito ou dez quilômetros umas das outras, e entre elas se erguiam túmulos, com até trinta e cinco metros de diâmetro, sobre homens importantes depois honrados como antepassados.
Em Polcenigo também houve um povoado na Idade do Bronze, ao pé do morro de San Floriano. Lá na planície, muitos castellieri ficaram vazios depois do século oitavo antes de Cristo. Mas no Palù, ao longo de todos aqueles longos séculos, as nascentes continuaram brotando, e os juncos continuaram crescendo sobre as estacas escondidas.
Agora viajamos para leste, pela planície, rumo ao mar. Há mais de dois mil anos, a terra no alto do Adriático era uma fronteira. Ao norte se erguiam os Alpes. A leste viviam os ístrios e os ilírios.
O historiador romano Tito Lívio conta uma história curiosa. No ano 186 antes de Cristo, um bando de gauleses atravessou as montanhas vindo do norte, por um caminho que ninguém conhecia. Não fizeram mal algum. Simplesmente encontraram um trecho de terra vazia, não longe de onde hoje fica Aquileia, e começaram a construir uma cidade.
Roma mandou enviados, e depois soldados. Três anos mais tarde, os gauleses se renderam sem luta. Eram uns doze mil gauleses armados, pelas contas de Tito Lívio. Explicaram que em casa eram gente demais, e a terra era pouca, e por isso tinham atravessado os Alpes em busca de um lugar para viver. O senado respondeu que eles não tinham direito de construir uma cidade em terra que não era deles. Mas mandou que seus bens fossem devolvidos, e eles voltaram para casa pelas montanhas.
O senado acrescentou um aviso: "Os Alpes estavam no meio como uma fronteira quase intransponível; quem fosse o primeiro a torná-los fáceis de atravessar certamente não sairia ganhando com isso." E logo depois o senado decidiu fundar ali perto uma colônia sua, para vigiar a fronteira. Discutiram se deviam mandar cidadãos romanos ou colonos latinos. No fim, escolheram colonos latinos.
E assim, no ano 181 antes de Cristo, foi fundada a colônia de Aquileia. Três homens foram enviados para dirigir a fundação: Públio Cornélio Cipião Násica, Caio Flamínio e Lúcio Mânlio Acidino. Com eles vieram cerca de três mil colonos que tinham sido soldados de infantaria, com centuriões e cavaleiros, e suas famílias.
Cada soldado de infantaria recebeu cinquenta iugera de terra, ou seja, uns doze ou treze hectares. Um centurião recebeu cem iugera, e um cavaleiro cento e quarenta. No museu de Aquileia há uma pedra com o nome de Lúcio Mânlio Acidino, e um relevo de mármore que mostra a aração ritual do primeiro sulco, como os romanos faziam ao fundar uma cidade.
Um geógrafo grego, Estrabão, escreveu que a cidade foi fundada como fortaleza contra os povos que viviam acima dela, ao norte. Os primeiros anos não foram fáceis. Os ístrios tentaram impedir que a colônia fosse sequer construída.
Dez anos depois da fundação, enviados de Aquileia foram a Roma. A colônia deles era nova, disseram, ainda mal defendida, entre dois povos hostis, os ístrios e os ilírios. Dois anos depois, em 169 antes de Cristo, mais mil e quinhentas famílias foram mandadas para se juntar a eles. Uma pedra achada no fórum lembra um dos homens que as guiaram, Tito Ânio. Ela conta como ele escreveu as leis da colônia, acrescentou membros ao seu conselho, e construiu um templo.
A nova cidade foi traçada numa grade regular, com muralhas desde o começo. Sua forma se curvava com o rio Natiso, que corria ao longo dos lados leste e sul. Navios mercantes podiam subir esse rio desde o mar por uns onze quilômetros, até a própria cidade.
E de onde veio o nome Aquileia? Uma velha história, contada pelo imperador Juliano no século quarto, diz que "na época da fundação da cidade uma águia de Zeus passou voando pela direita, e assim deu ao lugar o presságio que vinha da ave." A palavra latina para águia é aquila, e assim, conta a história, a cidade foi chamada Aquileia, a cidade da águia.
Outros acreditavam que vinha de aqua, água. Mas ninguém sabe ao certo. O nome pode ser mais antigo que a colônia, o nome de algum lugar ou rio anterior. Hoje, em friulano, a cidade se chama Aquilee, e em esloveno, Oglej.
Com o tempo, a colônia de fronteira se tornou algo muito maior. Aquileia virou uma das grandes cidades do mundo romano. Ninguém sabe exatamente quantas pessoas viviam ali. Dezenas de milhares, e talvez até cem mil.
Sua riqueza vinha da água. A cidade ficava a poucos quilômetros do mar, à beira da laguna, e o rio ao lado dela era largo o bastante para navios. Aqui o rio se abria até quase cinquenta metros de largura. E ao longo da margem direita, por mais de trezentos metros, estendia-se o cais do porto.
O cais foi reconstruído no início do século primeiro depois de Cristo. Era feito de altas lajes verticais de calcário, cobertas por blocos esquadrados bem encaixados, formando uma ampla plataforma de carga. Uns dois metros abaixo corria uma segunda passarela, rente à água, onde barcos menores podiam atracar. Três rampas inclinadas subiam do cais para as ruas da cidade.
Ao longo desse cais você ainda pode ver grandes blocos de pedra que se projetam a intervalos regulares, cada um com um furo que o atravessa de cima a baixo. Podem ter segurado postes de amarração, ou os pés de guindastes de madeira. E aqui e ali, riscados na pedra das passarelas, há pequenos tabuleiros de jogo, onde marinheiros e estivadores passavam o tempo. Atrás do cais havia um único prédio comprido de tijolo, com mais de trezentos metros de comprimento e no máximo treze de largura, provavelmente uma fileira de armazéns.
O que passava por este porto? Estrabão nos conta que Aquileia era um mercado para os povos que viviam no interior, rumo ao Danúbio. Eles carregavam suas carroças com "os produtos do mar, e vinho guardado em jarros de madeira, e também azeite de oliva," e os levavam para o interior. Em troca traziam gado e couros.
O âmbar também descia até Aquileia, das costas distantes do norte. O escritor romano Plínio diz que o âmbar era trazido pelos germanos até a Panônia, e que dali até as costas onde era encontrado era uma viagem de uns novecentos quilômetros. Um guia de viagem de 1913 dizia apenas que os principais produtos da cidade eram o âmbar e os objetos de vidro.
Estradas partiam da cidade em todas as direções. A Via Postumia, construída em 148 antes de Cristo, seguia para oeste pela planície até Gênova. Ao norte, uma estrada subia o vale do Tagliamento e atravessava os Alpes rumo ao Nórico. Outras iam para leste, rumo a Emona e à Panônia, e a Trieste e à Ístria. E no século segundo antes de Cristo, encontrou-se ouro ao norte, perto de onde hoje fica Klagenfurt, e isso também trouxe comerciantes a Aquileia.
Imperadores também vieram aqui. Augusto se hospedou em Aquileia durante suas guerras na Panônia. E por volta do ano 10 antes de Cristo recebeu aqui uma visita, o rei Herodes da Judeia. Muito depois, no século quarto, a cidade tinha um palácio imperial, uma casa da moeda onde se cunhavam moedas, e uma base da frota.
No coração da cidade ficava o fórum, uma praça aberta de uns cento e quarenta metros de comprimento e cinquenta e cinco de largura, calçada com calcário do vizinho Karst. Pórticos com lojas corriam pelos seus lados, e acima deles havia cabeças esculpidas de Júpiter Amon e de Medusa, uma para o Oriente e outra para o Ocidente. Perto dali passa uma rua que hoje leva o nome da mulher que pagou seu calçamento, Aratria Galla. Algumas colunas do fórum estão de pé outra vez hoje, reerguidas nos anos 1930.
Perto do fim do século quarto, um poeta da Gália chamado Ausônio escreveu um pequeno poema sobre as cidades famosas do mundo. Pôs Roma em primeiro lugar, depois Constantinopla, Cartago, Antioquia e Alexandria, depois Tréveris, Milão e Cápua. E em nono lugar na sua lista vinha Aquileia, "colônia da Itália, voltada para as montanhas da Ilíria e muito afamada por suas muralhas e seu porto."
Atrás do cais e do movimentado fórum, o povo de Aquileia vivia e trabalhava. Muitas das casas mais ricas eram construídas em torno de jardins ou pátios calçados, com pórticos, fontes e estátuas. Suas paredes eram pintadas, ou revestidas de painéis de mármore. E seus pisos eram cobertos de mosaico.
Fizeram-se mosaicos em Aquileia por mais de cinco séculos, do fim do século primeiro antes de Cristo ao século quinto depois de Cristo. Nas casas entre o fórum e o porto fluvial, os arqueólogos encontraram uma ninfa do mar, uma nereida, montada num touro marinho. Encontraram gavinhas de videira enroladas, e um tipo de piso que os gregos chamavam de sala não varrida. Esses pisos seguiam modelos gregos e orientais, mas eram feitos aqui, por hábeis artesãos locais.
Vamos olhar uma casa. Foi construída no início do século primeiro depois de Cristo, entre duas ruas. No meio havia um jardim, com um caminho de mosaico e uma fonte. De um lado, lojas se abriam para a rua, e do outro havia um átrio com quatro colunas. Um peso de pedra encontrado ali traz um nome, Tito Macro, provavelmente o nome do homem que era dono da casa.
Imagine um jantar numa casa assim. Os banquetes aconteciam à tarde ou à noite, em grandes salas decoradas, à luz suave de lamparinas a óleo de barro ou de bronze. Na cozinha havia panelas e frigideiras, pratos, jarros de armazenagem, tábuas de cortar e facas, de barro, vidro, pedra e metal.
Por toda a cidade, as pessoas faziam coisas. Os vidreiros recolhiam vidro quebrado e o derretiam de novo. Com o tempo aprenderam a soprar o vidro, livremente ou em moldes. Entre os vidros achados em Aquileia há frasquinhos para unguentos e perfumes.
O âmbar vinha do extremo norte, e Aquileia era um dos grandes lugares onde ele era entalhado e vendido. As pessoas acreditavam que o âmbar podia curar, e proteger contra o mau-olhado. Plínio nos conta que as camponesas além do rio Pó usavam colares de âmbar, em parte como enfeite e em parte por suas virtudes curativas. E ele notou outra coisa: "por causa da sua transparência, veem-se certos objetos dentro dele, formigas por exemplo, mosquitos e lagartos."
Lapidadores também trabalhavam aqui, muitas vezes com pedras trazidas por mar, entalhando figurinhas como Eros e Psiquê. Os oleiros carimbavam seus nomes nos tijolos, e um deles riscou um aviso no barro molhado, sobre alisar seiscentos tijolos, meio brincadeira, talvez, e meio ameaça. A lápide de um ferreiro o mostra na bigorna com martelo e tenaz, enquanto um ajudante move o fole. Ao lado estão as coisas que ele fazia: alicates, um martelo, uma lima, uma fechadura.
Fora das muralhas, ao longo das estradas, ficavam as sepulturas. Um guia de viagem de 1913 descreve os túmulos romanos que "ladeavam as estradas fora das portas da cidade." Havia lápides simples e placas, altares, caixões de pedra e de chumbo, pequenos túmulos em forma de capela, e urnas com tampas altas e pontudas. Até o século segundo depois de Cristo, a maioria das pessoas era cremada, e suas cinzas eram postas em urnas de pedra, vidro, cerâmica, chumbo, ou até alabastro.
Um trecho dessas sepulturas ainda pode ser visto hoje. Cinco jazigos de família, cada um cercado por seu próprio muro, ficam junto a uma pequena estrada que sai da cidade. Pertenceram a famílias chamadas Statia, Iulia, Trebia e Cestia, e a uma cujo nome se perdeu. Foram usados a partir do século primeiro depois de Cristo, e descobertos em 1940 e 1941.
E no museu está a lápide de uma mulher chamada Bassilla. Era uma atriz grega de mimo, que morreu quando sua companhia estava em turnê em Aquileia. O chefe da sua trupe escreveu versos para ela, em grego. Numa grande cidade portuária, chegava gente de muitas terras, e alguns, como Bassilla, ficaram para sempre.
Por longos anos, Aquileia viveu na maior parte do tempo em paz. Suas velhas muralhas quase não eram necessárias, e em muitos lugares, pouco a pouco, foram se desfazendo e caindo. Então, no ano 238 depois de Cristo, a paz foi rompida.
Naquele ano, o senado em Roma se voltou contra o imperador Maximino, um imperador soldado conhecido como o Trácio, e escolheu outros imperadores em seu lugar. Maximino marchou para a Itália com seu exército. A primeira cidade no caminho, Emona, ele encontrou vazia e abandonada. Atravessou os Alpes e desceu à planície. E ali soube que Aquileia, a maior cidade daquela parte da Itália, tinha fechado as portas para ele.
Um historiador grego da época nos conta como o povo se preparou. Consertaram a velha muralha, reconstruíram os trechos caídos, e acrescentaram torres e ameias. Depois fecharam as portas, e ficaram juntos na muralha, de dia e de noite. Dois senadores que tinham sido cônsules, Crispino e Menófilo, assumiram o comando. Tinham trazido para a cidade provisões de todo tipo, e havia água bastante dos muitos poços dentro das muralhas, e do rio que corria ao pé delas.
Maximino mandou enviados até as muralhas, entre eles um oficial nascido em Aquileia, para convencer o povo a abrir as portas. Os enviados gritavam a mensagem lá de baixo, e o povo nas muralhas ouvia em silêncio. Mas Crispino, um homem digno e ótimo orador em latim, percorreu a muralha e os animou a resistir. E eles resistiram.
O povo de Aquileia tinha seu próprio deus, Beleno, um antigo deus celta da cura, que eles comparavam a Apolo. A maioria das pedras com o seu nome vem de Aquileia, e uma base dedicada a Apolo Beleno está guardada no museu. Por meio de oráculos e adivinhos, o deus prometeu a vitória. Mais tarde, alguns soldados contaram ter visto o deus da cidade no céu, lutando pelo seu povo. O historiador grego diz com franqueza que não sabe dizer se era verdade.
Era primavera, e as neves das montanhas estavam derretendo. A uns vinte e cinco quilômetros da cidade, Maximino chegou a um grande rio, largo e fundo, e encontrou sua ponte de pedra quebrada. Por dois ou três dias seu exército esperou na margem. Então seus engenheiros notaram muitos barris de vinho vazios, de madeira, largados nos campos desertos. Amarraram os barris uns aos outros, puseram tábuas por cima, espalharam terra sobre as tábuas, e assim fizeram uma ponte flutuante.
O campo em volta de Aquileia era lindo naquela estação. O historiador descreve árvores plantadas em longas fileiras regulares, com videiras estendidas de uma à outra, de modo que os campos pareciam vestidos para uma festa.
O cerco durou muitas semanas. Toda a população defendia as muralhas, diz o historiador, também as mulheres e as crianças. Um escritor antigo, nem sempre confiável, conta uma história famosa. Ele diz que, "sem cordas de arco com que atirar suas flechas, fizeram cordas com o cabelo das mulheres."
Fora das muralhas, foram os sitiantes que começaram a passar fome. O senado tinha fechado as estradas e os portos da Itália, e nenhum alimento chegava ao acampamento. Assim, o exército que sitiava a cidade estava, de certo modo, sitiado também. No fim, certo dia ao meio-dia, durante uma pausa na luta, o imperador foi morto no seu acampamento pelos próprios soldados.
O que veio depois é a parte mais suave da história. O povo de Aquileia montou um mercado no alto das muralhas, e vendeu comida e bebida, roupas e sapatos, aos soldados famintos lá embaixo. Logo depois o novo imperador, Máximo, veio de Ravena, e as portas de Aquileia se abriram para recebê-lo. Hoje, no museu, um altar esculpido com figuras de Roma e de Aquileia ainda lembra aquele longo cerco.
No ano 313, um edito promulgado em Milão deu aos cristãos a liberdade de praticar seu culto abertamente. Em Aquileia, o bispo naqueles anos era um homem chamado Teodoro. Sabemos um pouco sobre ele. No ano 314, ele e seu diácono, Agatão, assinaram as atas de um concílio de bispos realizado em Arles. E ele morreu por volta do ano 319.
Logo depois de 313, Teodoro construiu a primeira grande igreja de Aquileia. Na verdade era um conjunto de edifícios. Havia duas longas salas, lado a lado, cada uma com uns trinta e sete metros de comprimento e vinte de largura, unidas por uma sala transversal, com um batistério e os cômodos da casa do bispo. Foram construídas sobre edifícios romanos mais antigos, provavelmente armazéns do porto fluvial.
O piso da sala sul foi coberto inteiramente de mosaico. Mede cerca de setecentos e sessenta metros quadrados, o maior piso de mosaico paleocristão do Ocidente. Foi disposto em quatro grandes seções, uma depois da outra, a partir da entrada.
Na primeira seção há desenhos de laços entrelaçados, com retratos e animais. Mais tarde, acrescentou-se um pequeno painel, de um galo lutando com uma tartaruga. Na segunda seção, há retratos em medalhões redondos, entre eles as Estações. E há o Bom Pastor, levando uma ovelha nos ombros, de pé numa pose calma e clássica. Em volta dele, em pequenos painéis de oito lados, há peixes, um cervo, uma gazela, aves pousadas em galhos, e cegonhas.
Na terceira seção, onde ficava o altar, há uma Vitória alada, segurando uma coroa e uma palma. E a quarta seção é um único grande mar. Está cheio de peixes, com polvos e sépias, golfinhos e patos. Há pequenas figuras aladas pescando, como as descrevem os guias mais antigos. E pela água corre a história de Jonas. Ele é jogado de um navio, engolido por um grande monstro marinho, devolvido, e por fim descansa à sombra de uma aboboreira.
No meio do mar há um medalhão redondo, com uma inscrição em latim. Ela começa com as palavras Theodore felix, Teodoro feliz. Em português, suas palavras dizem a Teodoro que, com a ajuda de Deus todo-poderoso e do rebanho que o céu lhe deu, ele fez todas as coisas com bem-aventurança e as consagrou com glória. Como se dirige a Teodoro, o medalhão provavelmente foi colocado depois da sua morte.
Por apenas uns oitenta anos se caminhou sobre esse piso. Depois foi coberto por construções posteriores, e ficou escondido por cerca de quinze séculos, a cerca de um metro abaixo do piso da igreja posterior. Acima dele, gerações de pessoas vieram e foram, e nunca souberam o que havia sob seus pés.
Em 1894, uma revista italiana descreveu a velha basílica sozinha entre hortas, com um piso quadriculado de mármore branco e vermelho. Por volta daqueles anos, uma pequena sondagem perto do túmulo de um patriarca revelou um fragmento de mosaico: quatro peixes grandes, nadando numa rede de pesca. Por muito tempo ele só pôde ser visto por um alçapão no piso.
Então, no verão de 1909, a igreja foi fechada para reparos. No fim de julho, operários que cavavam junto à parede sul, a mais de um metro de profundidade, encontraram uma camada de mosaico colorido. No início de agosto já estava claro que o velho piso se estendia por toda a igreja. Um estudioso friulano, Pio Paschini, leu corretamente as palavras da inscrição, e o nome de Teodoro voltou à luz.
Imagine os operários tirando a terra com pincéis, e as cores aparecendo uma a uma, os peixes, as aves, o Bom Pastor. Nos anos seguintes, até 1915, todo o grande piso foi descoberto, pedaço por pedaço, e o mar de peixes de Teodoro ficou à vista mais uma vez.
Aquileia já tinha resistido antes. No ano 401, aguentou firme contra os visigodos de Alarico. E seu povo ainda se lembrava, ao que parece, de como seus antepassados tinham um dia resistido a Maximino.
Na primavera de 452, Átila, rei dos hunos, atravessou os Alpes e entrou na Itália. A primeira cidade que ele atacou foi Aquileia. Um escritor do século sexto, Jordanes, a descreve como a principal cidade da Venetia, situada numa ponta de terra junto ao Adriático, com o rio, que ele chama de Natissa, banhando suas muralhas do lado leste. O cerco, diz ele, foi longo e duro, pois soldados valentes defendiam a cidade por dentro.
E aqui chegamos a uma velha história, contada por dois escritores do século sexto. Na versão de Jordanes, o exército de Átila estava cansado e queria partir. Átila andava em volta das muralhas, pensando se devia levantar acampamento, quando notou uma coisa. As cegonhas, escreve Jordanes, "que fazem seus ninhos nas cumeeiras das casas, levavam seus filhotes para fora da cidade e, contra o seu costume, os carregavam para o campo." Átila disse aos soldados que as aves preveem o futuro.
O outro escritor, o historiador grego Procópio, conta de um jeito um pouco diferente. Na versão dele, o cerco tinha durado tanto que Átila tinha mandado seu exército partir ao nascer do sol. Naquela manhã, uma única cegonha macho, que tinha o ninho numa torre da muralha, levantou voo e partiu com seus filhotes. Eles ainda não estavam bem prontos para voar. Então às vezes voavam ao lado do pai, e às vezes iam montados nas suas costas.
Átila, nessa história, viu ali um sinal, e mandou seu exército ficar onde estava. E pouco depois, conta a história, justamente o trecho da muralha onde a cegonha tinha feito o ninho desabou sozinho. Um historiador inglês do século dezoito, Edward Gibbon, observou que não é fácil decidir qual das duas versões veio primeiro.
No verão de 452, depois de um longo cerco, a cidade foi tomada e em grande parte destruída. Jordanes escreveu que mal restou um vestígio dela, mas isso não era bem verdade. Aquileia continuou viva por mais de cem anos. A sala norte da igreja de Teodoro, porém, queimou naqueles dias, e nunca foi reconstruída.
Átila seguiu para outras cidades da planície, e depois para Milão e Pavia. Por fim, junto ao rio Mincio, o papa Leão saiu ao seu encontro, e Átila voltou para trás pelos Alpes.
Muita gente encontrou abrigo nas ilhas da laguna, onde, com o tempo, cresceriam Grado e Veneza. Era um mundo tranquilo de águas rasas e pequenas ilhas. Gibbon, baseando-se numa carta escrita uns setenta anos depois, disse que o povo da laguna vivia como aves aquáticas, com seus ninhos presos sobre as ondas. "O peixe era o alimento comum, e quase universal, de todas as classes: seu único tesouro era a fartura de sal, que eles extraíam do mar."
Outras histórias sobre Átila ainda são contadas no Friul. Em Udine, dizem que o morro onde fica o castelo foi erguido pelos seus soldados, para que ele pudesse ver Aquileia queimando ao longe, do outro lado da planície. Os velhos guias chamavam isso de tradição, e o morro, na verdade, é muito mais antigo que Átila.
E nos arredores de Aquileia, existe a lenda do poço de ouro. Dizem que, ao fugir, os cidadãos esconderam seu tesouro num poço, e que ninguém nunca mais o encontrou. Dizem também que, até a Primeira Guerra Mundial, quando se vendia um campo perto de Aquileia, a escritura às vezes trazia uma linha curiosa: Vendo-lhe o campo, mas não o poço de ouro.
Mesmo nos seus tempos mais difíceis, Aquileia continuou sendo a sede de uma grande igreja. Uma antiga tradição dizia que o próprio São Marcos tinha pregado ali, e que Santo Hermágoras foi seu primeiro bispo. Hermágoras e Fortunato se tornaram os padroeiros da cidade.
A palavra patriarca vem do grego, e quer dizer algo como pai e governante. Nos primeiros séculos era um título honorífico, dado aos bispos das igrejas mais importantes. Os bispos de Aquileia começaram a usá-lo no século sexto, num tempo de desavenças. Em 553, um concílio em Constantinopla condenou três escritos, conhecidos como os Três Capítulos. Os bispos do norte da Itália, liderados pelo bispo de Aquileia, se recusaram a aceitar isso, e romperam com Roma. Foi durante essa longa disputa que o bispo de Aquileia adotou o título de patriarca.
Em 568, os lombardos desceram para a Itália. O patriarca deixou Aquileia rumo à ilha de Grado, e levou consigo todo o tesouro da sua igreja. Grado ficava perto da terra firme, mas fora do alcance dos lombardos, que não tinham barcos. Paulo Diácono, um historiador nascido em Cividale, acrescenta uma lembrança daquele ano: "Neste ano, no começo do inverno, caiu na planície tanta neve quanto costuma cair nos cumes dos Alpes, e no verão seguinte houve uma fartura tão grande como nenhuma outra época afirma lembrar."
No início do século sétimo, a igreja se dividiu. Um patriarca vivia em Grado, sob a proteção do Império Bizantino. Outro foi escolhido na velha Aquileia, sob os lombardos. Como diz Paulo Diácono, "a partir daquele tempo começou a haver dois patriarcas."
Os patriarcas da terra firme mudaram de um lugar para outro. No século oitavo se estabeleceram em Cividale. Mais tarde voltaram a Aquileia, e no século treze se mudaram para Udine.
Na primeira metade do século onze houve um patriarca chamado Poppo, amigo do imperador Conrado Segundo. Um terremoto tinha danificado a velha igreja de Aquileia, e Poppo a reconstruiu. Em treze de julho de 1031, festa de Hermágoras e Fortunato, a nova basílica foi consagrada e dedicada à Virgem Maria. Na abside, um afresco ainda mostra a consagração, na presença do imperador Conrado.
Sob o altar fica uma cripta, feita no século nono para guardar as relíquias de Hermágoras e Fortunato. Suas paredes são cobertas de afrescos medievais que contam a lenda de São Marcos. Na nave esquerda há uma pequena capela redonda de mármore, feita em 1031 como cópia do Santo Sepulcro.
Ao lado da igreja, Poppo ergueu um grande campanário, com uns setenta e três metros de altura, feito de pedras tiradas do antigo anfiteatro romano. Sua parte de cima foi acrescentada no século quatorze.
A igreja mudou de novo nos séculos seguintes. Depois do grande terremoto de 1348, o patriarca Marquardo reconstruiu a nave em estilo gótico. Mais tarde ainda, carpinteiros venezianos fizeram para ela um teto de madeira, em forma de quilha de navio.
Os patriarcas não eram só homens da Igreja. Em 1077, o rei, e depois imperador, Henrique Quarto, deu ao patriarca Sigehard os direitos de duque sobre o Friul. Segundo a tradição, este é o começo do Estado Patriarcal, que o povo chamava de Patria del Friuli. No seu auge, ele chegava também ao Cadore, a Trieste, e a partes da Ístria, da Carníola e da Caríntia. E tinha um parlamento, onde nobres, clero e cidades se sentavam juntos.
Os patriarcas cunhavam suas próprias moedas. Um guia de viagem de 1913 fala de um museu em Udine que guardava uma série completa das moedas de todos os patriarcas de Aquileia. E o mesmo guia descreve uma sala do trono no palácio do arcebispo em Udine, com os retratos de todos os patriarcas, um depois do outro, olhando tranquilos do alto das paredes.
Deixamos agora a laguna, e a velha basílica dos patriarcas, com seu alto campanário erguido sobre os campos. Viajamos para o norte, pela vasta planície do Friul, rumo às montanhas. Devagar, a terra começa a subir. Os campos dão lugar a largos leitos de pedras claras, e depois a encostas cobertas de bosques. E por fim chegamos a um lugar onde as montanhas se fecham, e o grande rio Tagliamento desce dos Alpes.
Aqui, onde dois vales se encontram, fica a pequena cidade murada de Venzone. Um vale sobe pelo Tagliamento, rumo às montanhas da Cárnia. O outro, estreito e íngreme, segue o rio Fella rumo a Pontebba e Tarvisio, e às terras da Caríntia além dos Alpes.
Esse segundo vale se chama Canal del Ferro, o Vale do Ferro. Suas encostas são íngremes e arborizadas, com rochas despontando entre as árvores. Seu nome, encontrado em documentos do século treze, vem do antigo comércio de ferro, que descia por aqui das minas da Estíria e da Caríntia, rumo aos portos do Adriático.
As pessoas viajavam por aqui havia muito, muito tempo. Já era uma rota no tempo dos celtas. Na época romana, uma estrada chamada Via Iulia Augusta subia de Aquileia por estes vales, rumo à província do Nórico, e foram encontrados vestígios de um pequeno posto romano perto do lugar onde hoje fica a catedral de Venzone.
Um manual inglês para viajantes, impresso em 1858, segue a velha estrada que desce do norte, por um vale estreito fechado por montanhas de calcário, passando por forjas de ferro, até Pontebba, onde uma torre numa ponte de pedra marcava a fronteira. Ele diz de forma simples: Pontebba fica numa passagem estreita, entre altas montanhas, que se pode dizer que formam a porta da Itália.
No ano 1001, o imperador Oto Terceiro deu ao patriarca de Aquileia direitos sobre a parte mais estreita do vale, e sobre as pastagens do Canal del Ferro. Assim, os patriarcas, que deixamos lá junto à sua basílica perto do mar, passavam agora a vigiar a porta do norte.
Os mercadores não podiam simplesmente passar. Venzone era um posto alfandegário, e todo mercador era obrigado a parar. Uma comunidade de falantes de alemão vivia ali, e em alemão a cidade tinha um nome próprio, Peuscheldorf. As mercadorias iam e vinham, e a pequena cidade cresceu.
Por volta do ano 1200, os patriarcas deram Venzone como feudo a uma família nobre, os senhores de Mels. E no século treze, numa obra que costuma ser datada de 1258, Glizoio de Mels começou a construir suas muralhas. Eram dois anéis, de calcário cinzento, com um fosso profundo alimentado pelo riacho da montanha, e umas quinze torres. Em volta da cidade, as muralhas se estendiam por cerca de mil e trezentos metros. Das antigas portas, uma ainda resta do século quatorze, a porta de San Genesio, uma torre de vigia num canto das muralhas internas.
Nos anos seguintes, Venzone mudou de mãos várias vezes. Passou aos condes de Gorizia, e em 1336 o patriarca Bertrando a retomou. Bertrando deu à cidade o direito de cobrar a muta, o pedágio sobre as mercadorias, que até então era cobrado em outros lugares dos vales. Havia também um mercado semanal, ao qual os camponeses desciam dos vales. Em 1381 Venzone se tornou uma comunidade livre, com um conselho dos Quarenta e um assento no Parlamento do Friul. E em 1420, como o resto do Friul, passou ao domínio de Veneza.
Sob Veneza a cidade prosperou, e mais de duas mil pessoas viviam ali. Mas aos poucos a velha estrada perdeu importância, e em 1858 o manual inglês encontrou Venzone vivendo da criação de bichos-da-seda. Depois, em 1876, a ferrovia passou pelo vale, e o comércio da pequena cidade ficou ainda mais calmo.
Dentro das muralhas de Venzone se ergue uma grande igreja de pedra, a catedral de Santo André. Santo André Apóstolo é o padroeiro da cidade, e sua festa cai em trinta de novembro, às portas do inverno.
Muito antes da catedral, já havia uma igreja neste lugar. Achados perto da sua fachada sugerem que uma pequena igreja já existia aqui no século sexto. Em meados do século treze, Glizoio de Mels, o senhor que construiu as muralhas, mandou ampliar a velha igreja. Depois, nos primeiros anos do século quatorze, ela foi reconstruída, com projeto de um mestre de obras da vizinha cidade de Gemona. Era mestre Giovanni, chamado Griglio, que também trabalhou na catedral de Gemona. Uma das portas da catedral de Venzone, do lado norte, traz a data de 1308.
Em 1338, a nova igreja foi consagrada pelo patriarca Bertrando, o mesmo que tinha retomado a cidade dois anos antes. Bertrando foi um homem da Igreja reformador, e depois da sua morte foi venerado como beato. Uma descrição da igreja, escrita em 1568, conta que ela guardava relíquias em vasos de ouro e prata, presentes dos patriarcas, e sobretudo de Bertrando, que parece ter tido grande carinho por esta cidade.
Por muito tempo a igreja de Venzone foi filha da igreja mais antiga de Gemona. Só em 1391 o papa fez dela uma paróquia própria. Mesmo então, Venzone pagava a Gemona vinte e cinco ducados por ano, e todo ano, em Pentecostes, o povo de Venzone ia em procissão até Gemona.
A catedral foi construída num estilo entre o românico e o gótico. Sua planta é uma cruz latina, com uma só nave e um transepto largo e luminoso. No fundo há três absides, ladeadas por duas torres. Por fora, as absides têm muitos lados, com contrafortes nos cantos, e no alto dos contrafortes há pequenas pirâmides de pedra e estátuas. Há quatro sinos, pendurados para balançar à maneira friulana.
Há três portas. Sobre a porta norte, Cristo dá a sua bênção. Sobre a porta sul, a Virgem é coroada. Sobre a porta principal, esculpida em meados do século quatorze, está a Crucificação. E do lado norte, seis relevos redondos de pedra em estilo vêneto-bizantino estão embutidos na parede.
Dentro há afrescos. Um mostra a consagração da própria catedral. Outro, pintado por volta de 1350 pela escola de Vitale da Bologna, mostra São Martinho e o mendigo. Outro mostra São Jorge e o dragão. Há uma Pietà de pedra do início do século quinze, e uma Lamentação esculpida com oito figuras. E em 1792, o organeiro Gaetano Callido fez um órgão para a igreja.
Não muito longe, na praça principal, fica o palácio municipal. É um edifício gótico, construído por volta de 1400. No térreo há uma loggia aberta, e na sua parede do fundo há afrescos do pintor Pomponio Amalteo. Uma escada larga sobe por fora até o andar de cima, onde as janelas têm graciosos lóbulos góticos. Uma pequena torre no canto abriga um relógio, e o leão de São Marcos, o símbolo de Veneza. E pelas paredes estão os brasões das antigas famílias de Venzone.
Se você subisse aquela escada externa, e entrasse na sala do conselho, encontraria uma Madona de madeira do século quinze. E na parede, um afresco mais antigo, do século quatorze, de Santo Elói, padroeiro dos ferreiros e ferradores, com dois cavaleiros disputando uma justa ao seu lado.
Tanto a catedral quanto o palácio municipal um dia teriam de ser reconstruídos, pedra por pedra, como vamos ouvir bem mais adiante. Mas por enquanto, vamos deixá-los de pé, tranquilos na luz do entardecer, como ficaram por muitos séculos, com as montanhas em volta.
Venzone tem mais uma história para contar, e ela é curiosa. Vamos contá-la em voz baixa, e com delicadeza.
Em 1647, faziam-se umas obras na catedral, para abrir espaço para uma nova capela, a capela do Rosário. Foi aberto um velho túmulo do século quatorze, um túmulo com o brasão dos Scaligeri de Verona. Dentro estava o corpo de um homem. Mas ele não tinha virado pó. Seu corpo tinha secado, e ficado muito leve, quase como pergaminho.
Uma revista americana de 1906, traduzindo um relato francês, o descreveu. Era um homem de estatura média, e pesava só quinze quilos, embora em vida pareça ter sido bem corpulento. O povo passou a chamá-lo de il Gobbo, o Corcunda. Ele tinha morrido, ao que parece, por volta de meados do século quatorze.
Isso foi só o começo. Ao longo dos séculos, mais desses corpos secos foram encontrados nos túmulos sob o piso da catedral, uns quarenta ao todo. Mas isso não acontecia em todos os túmulos. O mesmo relato de 1906 diz que só onze túmulos, todos perto do altar-mor, tinham esse poder curioso. Pareciam bem comuns. Eram pequenas câmaras de alvenaria, fechadas com lajes de pedra.
Os corpos secavam em pouco mais de um ano. A pele ficava de um marrom amarelado, como couro curtido. O autor de 1906 descreveu assim: São extremamente leves, e quando batidos soam como um maço de pergaminho.
Por que isso acontecia, ninguém sabe ao certo. Antes se acreditava que um mofo fino crescia nos túmulos, um mofo tão ávido de umidade que secava os corpos antes que eles pudessem se decompor. Um livro impresso em Milão em 1831 tinha até um desenho dele. O relato de 1906 acrescenta que um corpo posto num caixão de zinco lacrado nem chegou a virar múmia.
Escritores locais também falavam de um mineral no solo, o sulfato de cálcio. Depois, em 1983, um cientista americano, Arthur Aufderheide, procurou o mofo, e não o encontrou. Ele achou que o solo seco de calcário, e o abrigo da igreja acima, eram razões mais prováveis. E assim a questão continua em aberto.
Diante da catedral fica uma pequena capela redonda, a capela de San Michele, construída no século treze, com uma cripta embaixo. Por muito tempo as múmias foram guardadas nessa cripta. Nos anos 1840 foram levadas para a capela de cima, que passou a ser conhecida como o Museu das Múmias. Os corpos eram mostrados aos visitantes desde o século dezoito. O manual inglês de 1858 fala deles numa só linha: Os corpos dos mortos desta igreja se conservam naturalmente em estado de múmias. A tradição local diz até que Napoleão veio vê-los.
Em 1950, um fotógrafo americano veio a Venzone, e as múmias apareceram numa reportagem fotográfica de uma revista famosa. Estudiosos também vieram estudá-las ao longo dos anos, e escreveram livros e artigos sobre elas.
O último sepultamento nos túmulos da catedral foi em 1881. Como notou o autor de 1906, a lei da Itália já não permitia enterros dentro das igrejas. E assim as múmias de Venzone já não podiam aumentar em número, e o estranho dom dos túmulos se tornaria só uma lembrança.
Hoje, cinco delas repousam na cripta de San Michele, na penumbra sob a capela redonda. Ficam ali bem quietas, leves como folhas secas, guardando seu velho segredo. Lá fora, os sinos da catedral tocam as horas sobre a praça, e as montanhas cercam a pequena cidade, como sempre fizeram.
De Venzone, vamos voltar pela planície do Friul, passando pelo largo leito de pedras do Tagliamento, e seguir para oeste, até onde a planície volta a encontrar as montanhas, ao pé do Monte Cavallo. Aqui fica Polcenigo.
A velha aldeia fica num vale estreito, ao longo de um riacho pequeno e rápido chamado Gorgazzo. Algumas das suas casas já foram moinhos e forjas, construídos sobre a água. E ao norte da aldeia se ergue um morro. No alto dele ficava o castelo de Polcenigo.
Um antigo livro sobre Sacile e seu distrito foi impresso em 1868. Ele descreve o lugar assim: Num morro que se ergue quase no meio de uma pequena planície, fechada pela montanha, pelo Gorgazzo e pelas colinas, algumas ruínas ainda lembram o antigo castelo.
Antigamente, Polcenigo também se chamava Paucenigo, ou Pulcenico. O castelo é citado pela primeira vez no ano 963, numa doação feita pelo imperador Oto Primeiro ao bispo de Belluno. Nos séculos onze e doze pertencia a uma família de senhores que tomou dele o seu nome, os senhores de Polcenigo, que depois se tornaram condes. Eram uma antiga família nobre do Estado Patriarcal, com assento no seu Parlamento. A tradição da família afirmava até que seus antepassados tinham vindo da França, muito tempo atrás.
O castelo medieval tinha uma torre forte, a torre de menagem, e dois anéis de muralhas com ameias. A aldeia cresceu ao longo do anel sudeste, e no início do século treze o castelo foi ampliado para abrangê-la. Os senhores de Polcenigo também tinham Fanna, nas colinas a leste, com outro castelo acima dela, chamado Mizza.
Pequenos vislumbres da sua vida chegam até nós em papéis antigos. Em 1219, uma escritura foi lavrada no pórtico da igreja do castelo, a igreja de San Pietro. E em 1295, uma dama da família, Hengerada, mulher de Gerardo de Polcenigo, deixou em testamento dinheiro para consertar um cálice daquela igreja.
Os séculos passaram. No início do século dezessete, dois condes de Polcenigo, os irmãos Giovanni Battista e Marzio, foram capturados pelos turcos, e parte do castelo foi vendida para pagar o resgate. Seus pesados grilhões de ferro foram pendurados, como oferta de agradecimento, numa igreja junto às nascentes do Livenza, que vamos visitar em breve. Nesse mesmo século o velho castelo foi destruído por um incêndio, e no início do século dezoito estava em mau estado.
Então os condes decidiram construir de novo. Em meados do século dezoito, no alto do morro, ergueram um grande palácio em estilo veneziano, atribuído ao arquiteto veneziano Matteo Lucchesi. O livro de 1868 diz: O conde Ottavio construiu no seu cume um suntuoso palácio, obra admirável de Matteo Lucchesi.
Foi construído com pedras do velho castelo, e com grandes blocos de uma pedreira próxima. Lembrava os palácios do Grande Canal, em Veneza. Tinha três andares e dezoito salas, com afrescos e estuques, tapeçarias e espelhos, e uma fileira de altas janelas em arco voltadas para a aldeia lá embaixo.
Da aldeia, uma grande escadaria subia o morro até o salão de baile. Tinha mais de dez metros de largura, com uma loggia ao lado onde se podia parar e descansar. Tinha uns trezentos e sessenta e cinco degraus, um para cada dia do ano, dizem. Imagine uma noite de verão de muito tempo atrás, com luz nas altas janelas, e convidados subindo devagar a longa escada, degrau por degrau, rumo ao salão de baile.
Os condes viveram ali por cerca de um século. Depois, no século dezenove, a família o deixou. Donos posteriores levaram embora tudo o que podia ser removido, até as telhas do teto. Hoje o palácio pertence ao município. Ele está de pé no seu morro, sem telhado, com as janelas vazias abertas para o céu, olhando para a aldeia e o riacho lá embaixo.
Perto de Polcenigo, ao pé das montanhas, a água brota de dentro da terra. Há aqui três grandes nascentes, e juntas elas dão origem ao rio Livenza. São elas o Gorgazzo, a Santissima e uma terceira nascente, o Molinetto, perto de Caneva.
De onde vem toda essa água? Acima das nascentes se erguem as montanhas do Cansiglio e do Monte Cavallo, feitas de calcário. Ali caem a chuva e a neve, e somem por fendas e cavidades da rocha. A água viaja no escuro, através da montanha, e volta a subir ao pé dela.
O Gorgazzo fica a cerca de um quilômetro da aldeia, escondido entre árvores e rochas. Parece um pequeno poço fundo, ao pé de uma parede cinzenta de rocha. O povo do lugar o chama de el buso, o buraco. Sua água é gelada, mesmo no verão, e tem cores maravilhosas: esmeralda, turquesa e, onde é mais funda, um azul intenso. As margens são tingidas de vermelho pelo calcário, e de verde pelas algas.
Em 1877, um geógrafo do Friul, Giovanni Marinelli, veio vê-lo, e procurou as palavras certas. Tome a cor da esmeralda, escreveu ele, a cor da turquesa, a cor do berilo; jogue-as num banho de lápis-lazúli, e você terá o tom daquele pedaço de céu líquido que se chama Gorgazzo. Alguns anos antes, em 1872, o pintor Luigi Nono tinha pintado a nascente, e voltou para pintá-la várias vezes.
Ninguém sabe até que profundidade vai o Gorgazzo. Mergulhadores já desceram mais de duzentos metros, e ainda ninguém encontrou o fundo. Bem mais perto da superfície, a uns nove metros de profundidade, há uma estátua de Cristo, e nos dias claros ela pode ser vista de cima.
Da nascente, o riacho Gorgazzo desce sinuoso até a aldeia em pequenas cascatas, entre velhas casas de pedra e madeira. Ao longo dele, os condes de Polcenigo construíram seus moinhos. O antigo livro sobre Sacile, impresso em 1868, diz: Ao longo do Gorgazzo construíram vários moinhos de grãos, uma serra movida a água e uma forja com martelo hidráulico. Mais tarde houve também uma fiação de seda, e dizia-se que os condes foram os primeiros do Friul a plantar amoreiras.
Na Santissima nasce o próprio Livenza. Aqui muitas pequenas nascentes brotam tão juntas que parecem formar uma única grande boca de água. Há um som constante de água correndo e borbulhando, que aos poucos se aquieta num remanso largo e calmo. Em poucas dezenas de metros o rio já está formado, e fundo o bastante para barcos.
Junto às nascentes fica o santuário da Santíssima Trindade, a Santissima Trinità. Segundo uma lenda local, a Santíssima Trindade apareceu aqui certa vez, há muito tempo, nos dias de um imperador romano. A igreja é citada pela primeira vez no século quatorze, e no século quinze o povo já vinha aqui em peregrinação, para pedir filhos, e chuva em tempos de seca. No século dezesseis, frades franciscanos vieram de Veneza para cuidar do santuário. Lá dentro há um retábulo de madeira entalhada e pintada da Santíssima Trindade, feito em 1494 por Domenico da Tolmezzo, e uma estátua chamada Madonna del Latte, que as mães procuravam quando não conseguiam amamentar seus bebês. E aqui estão pendurados os grilhões de ferro dos condes de Polcenigo.
O vale da Santissima já foi um pântano, perto do lugar onde, como ouvimos bem antes, as pessoas viviam numa aldeia no pântano, há uns seis mil anos. No século dezenove o pântano foi drenado, e foi transformado em campos.
Daqui o Livenza segue pela planície, passa por Sacile, onde envolve a cidade em vários braços, e vai até o Adriático, perto de Caorle. Um cronista veneziano, Marin Sanudo, que visitou Sacile em 1483, anotou apenas que o Livenza vinha de Polcenigo, que os barcos podiam navegar nele, e que terminava no mar.
Vamos voltar agora aos primeiros anos do século quinze, quando uma grande mudança se aproximava de todo o Friul. Por mais de três séculos, os patriarcas de Aquileia tinham governado o Friul como príncipes. Em 1418, um exército do imperador entrou no Friul, apoiado pelo patriarca, Ludwig von Teck, e pelos condes de Gorizia. Do outro lado estava Veneza, ajudada por uma grande família friulana, os Savorgnan.
A guerra correu bem para Veneza. Sacile caiu. Cividale se rendeu por vontade própria. Udine foi sitiada, e caiu, e depois de Udine vieram Aquileia e todas as fortalezas do Friul. Um historiador de Veneza, que escrevia em 1893, resumiu numa só linha: O ano de 1420 viu a República senhora de toda a província, do mar aos Alpes. O patriarca renunciou formalmente ao seu senhorio.
Uma enciclopédia de 1911 conta a história com um leve sorriso. Os nobres do Friul, diz ela, tinham pedido ajuda a Veneza, e Veneza, depois de vencer, ficou com o país para si, uma nova ilustração de uma das fábulas de Esopo.
No verão de 1420, o primeiro lugar-tenente veneziano do Friul, Roberto Morosini, assumiu o cargo em Udine. Daí em diante, um lugar-tenente enviado de Veneza morava em Udine, primeiro por um ano, e depois por dezesseis meses. Udine continuou sendo a capital da Patria del Friuli, como a terra era chamada. Na sua praça principal ergueu-se um novo palácio municipal, em estilo gótico veneziano, entre 1448 e 1457, e diante dele fica uma torre do relógio que lembra a da Praça de São Marcos, em Veneza.
Veneza não varreu o velho mundo. Deixou muita coisa como estava. O antigo Parlamento do Friul continuou se reunindo. Os senhores dos castelos mantiveram seus castelos, e as cidades, seus próprios estatutos. Mais tarde, a partir de 1518, as aldeias tiveram uma assembleia própria, chamada Contadinanza.
Em Polcenigo, os condes continuaram senhores, agora sob a República. Já antes da guerra, em 1410, tinham prometido a Veneza manter dezesseis cavalos para a defesa da terra entre o Tagliamento e o Livenza, e Veneza lhes pagava vinte ducados por ano por cavalo. Lá nas montanhas, Venzone também se tornou veneziana.
Os patriarcas não desistiram de imediato. Num grande concílio da Igreja em Basileia, o patriarca acusou Veneza de ocupar o Friul ilegalmente. Mas em 1437, em Praga, Veneza recebeu do imperador a concessão formal de seus domínios na terra firme. E em 1445, o patriarca renunciou às suas terras de vez, em troca de um pagamento anual de cinco mil ducados.
Do início dos anos 1470 até 1499, vieram anos mais duros, quando cavaleiros otomanos da Bósnia fizeram várias incursões no Friul, cavalgando rápido pela planície e evitando as cidades muradas. Dizia-se que suas fogueiras podiam ser vistas de longe, do campanário de São Marcos, em Veneza. Veneza construiu fortes ao longo do rio Isonzo e montou sinais para avisar as aldeias, e em 1479 fez a paz com o sultão, embora uma última incursão tenha vindo em 1499, até o Livenza.
Com o tempo, a terra voltou a se acalmar. Os campos foram semeados e colhidos, e os sinos tocavam nas aldeias. Para Polcenigo, seguiram-se três séculos de paz e, no século dezoito, anos de prosperidade.
Assim o Friul se tornou uma das províncias de terra firme de Veneza. Seu povo ainda falava seu próprio friulano, e mantinha seus costumes, nas aldeias da planície e nos vales das montanhas. Mas agora, quando chegavam notícias ou ordens, elas vinham da cidade na laguna.
Vamos voltar agora à laguna, a Aquileia, e ver o que foi feito da velha cidade dos patriarcas. Quando Veneza tomou o Friul, em 1420, Aquileia passou para Veneza com o resto. Os patriarcas perderam seu poder de príncipes, mas a velha cidade ainda dava nome à sua grande igreja, o Patriarcado de Aquileia.
Aquileia ficava perto da borda leste do Friul, junto às terras dos condes de Gorizia, que em 1500 passaram a outro poder, a Casa de Áustria. No início do século dezesseis, nas guerras que começaram em 1509, Aquileia passou para os Habsburgos. E ali ficou, do lado austríaco da fronteira, até a Primeira Guerra Mundial. Do outro lado dos campos, a maior parte do Friul pertencia a Veneza. Assim, a velha cidade de imperadores e patriarcas se tornou uma tranquila aldeia de fronteira.
Por séculos, seus edifícios antigos tinham servido de pedreira, e muitas de suas pedras tinham ido construir Grado e a crescente cidade de Veneza. E a terra ao redor tinha mudado. Seus rios e canais tinham virado pântano, e com os pântanos veio a febre. Um guia de viagem de 1913 disse de forma simples: A região, por séculos tornada inabitável pela malária que subia dos rios e canais pantanosos, foi em parte drenada e repovoada desde o reinado de Maria Teresa. Um manual inglês de 1897 avisava que, em certas estações, o ar era insalubre, por causa dos pântanos ao redor.
A grande basílica continuava de pé. Nos anos venezianos, por volta de 1500, partes novas no estilo do Renascimento foram acrescentadas ao coro. Mas do palácio dos patriarcas, que já tivera um grande pátio e loggias com arcadas, restavam só duas colunas solitárias. Ao lado da basílica, o velho batistério foi caindo aos poucos em ruína, e dizem que sua decadência só começou em 1790, quando retiraram seus tirantes de ferro.
Enquanto isso, os próprios patriarcas tinham se tornado nobres venezianos. De 1465 até o fim, os últimos vinte patriarcas vieram todos de famílias nobres de Veneza, e os três últimos eram de uma só família, os Dolfin. Mas sua igreja ainda se estendia além da fronteira, em terras austríacas, e em Viena isso não agradava. Em 1719, um edito emitido em Graz proibiu os súditos austríacos de aceitar um patriarca escolhido sem o consentimento do imperador.
Por fim, em 1751, Veneza e a imperatriz Maria Teresa chegaram a um acordo, e o papa, Bento Quatorze, pôs fim ao velho Patriarcado de Aquileia. Em seu lugar, criou dois arcebispados: Udine, para o lado veneziano, e Gorizia, para o lado austríaco. O último patriarca manteve o título pelo resto da vida. Uma medalha foi cunhada naquele ano, e suas palavras em latim dizem que, com essa mudança, a paz foi devolvida aos súditos. Assim, depois de muitos séculos, não houve mais patriarcas de Aquileia.
E a aldeia? Um escritor inglês chamado Jackson veio aqui nos anos 1880. A caminho de Aquileia, viu ânforas romanas postas sobre muros de jardins como enfeite, e coroando as empenas das casas rurais. Ao chegar à aldeia, achou difícil acreditar que estava no coração de uma das maiores cidades de Roma. Havia, escreveu ele, uma pracinha gramada com meia dúzia de casas em volta. A rua da aldeia era pouco mais que uma estradinha de campo.
E, no entanto, todo ano, o arado revirava moedas e gemas, fivelas e fechos, da velha cidade sob os campos. Havia até vendedores que ofereciam falsas antiguidades aos visitantes. Junto a dois tranquilos córregos de moinho, ainda se podia distinguir o contorno quadrado do primeiro acampamento romano.
Imagine caminhar ali numa noite calma de verão, por aquela estradinha de campo, com o alto campanário acima de você e os juncos se mexendo nas valas. Em sua pequena aldeia, entre os campos e os pântanos, Aquileia dormia, com seus tesouros debaixo da terra.
Vamos voltar a Polcenigo, ao pé das montanhas, e passar um tempo na própria aldeia. Todo ano, no início de setembro, Polcenigo realiza uma feira que se chama Sagra dei Sest, a festa dos cestos. Na fala friulana do lugar, um sest é um cesto. Dizem que essa feira é realizada há mais de trezentos anos.
Ela não começou na aldeia, mas na Santissima, junto às nascentes do Livenza. Ali, no santuário, os camponeses vinham comprar recipientes simples de vime e junco, prontos para a vindima, que começava em setembro ou outubro. Os cestos eram feitos com o que crescia ali perto. O pântano junto às nascentes, antes de ser drenado no século dezenove, era cheio de raminhos finos e flexíveis e de varas de vime, e por séculos abasteceu os cesteiros. Em 1922, um escritor local notou que a igreja tranquila das nascentes ganhava vida a cada setembro, na festa de Nossa Senhora, com multidões que desciam das montanhas e vinham das aldeias vizinhas.
Mais tarde a feira passou para o centro de Polcenigo, e hoje vêm milhares de pessoas. Imagine as velhas vielas numa manhã do início de setembro, cheias de barracas. Há cestos e objetos de vime, junco, ráfia e madeira, e também cerâmica, couro, cobre e ferro forjado. Há frutas e mel, embutidos e queijos. Artesãos mostram como se fazia o trabalho antigo, e a aldeia tem até uma escola de trançado, com cursos para jovens e velhos.
A aldeia antiga tem construções do século quinze ao dezessete, com pátios e jardins. A meio caminho entre a aldeia e o castelo fica San Giacomo, outrora um convento de frades franciscanos. É citado pela primeira vez em 1262, e é o convento mais antigo da diocese de Concordia. A mesma dona Hengerada que conhecemos no castelo também se lembrou dos frades. O antigo livro sobre Sacile, impresso em 1868, diz: No tempo de São Francisco, ao que parece, o convento dos frades foi fundado neste lugar, pois consta que em 1295 dona Hengerada deixou cem liras para reparar o convento e a igreja.
A igreja foi reconstruída depois de um incêndio em 1482, e ampliada no século dezessete pelos condes de Polcenigo. Em 1769, Veneza fechou o convento, e no ano seguinte San Giacomo se tornou a igreja paroquial. Lá dentro há um retábulo de Egidio Dall'Oglio, um coro de madeira, tetos de caixotões pintados e uma sala do capítulo com painéis de madeira do século quinze.
Na antiga entrada da aldeia fica San Rocco, uma igrejinha antiga, dedicada ao santo que protegia o povo da peste. Tem um campanário baixo e quadrado, que talvez tenha sido uma torre de vigia. Ao lado da porta, uma mãozinha esculpida em pedra convida quem passa a deixar uma moeda. Lá dentro, sob vigas de madeira nuas, há afrescos desbotados pintados em 1638, um ano de peste.
A aldeia também tem seus palácios. O Palazzo Fullini-Zaia, na praça, é um palácio nobre do século dezessete ou dezoito, com arcos de pedra rústica e máscaras esculpidas. O Palazzo Manin-Zaro, no estilo veneziano tardio, tem uma longa fachada bege e verde, com uma janela trífora no centro. A família Manin tinha comprado uma parte de Polcenigo em 1608, quando era preciso dinheiro para o resgate dos condes capturados, e foi dona deste palácio por dois séculos.
O Palazzo Scolari-Salice tem um jardim em terraços, no estilo italiano. Foi traçado por um engenheiro, Pietro Quaglia, após a morte de sua jovem esposa, em 1861. Seus caminhos levam a uma pequena gruta, com água.
No Natal, presépios são montados nas vielas da aldeia antiga, e no outono, lá em cima, no lugarejo de Mezzomonte, há uma festa das castanhas. E assim o ano vai girando em Polcenigo, dos cestos às castanhas e ao Natal.
Agora deixamos as nascentes e as colinas suaves de Polcenigo, e subimos para as montanhas, para o vale do Cellina. O Cellina é uma torrente de montanha, que nasce nas montanhas perto de Claut. Por muito tempo, este vale foi difícil de alcançar a partir da planície, e como a estrada enfim chegou, vamos ouvir mais adiante.
Na entrada do vale, num terraço verde, fica a aldeia de Andreis, abrigada pelas montanhas, Monte Raut, Resettum e Fara. Andreis é citada pela primeira vez no ano 996, num documento do imperador Oto Terceiro, e se tornou paróquia própria em 1651. Na sua própria fala, ela se chama Andrees, pois o povo do vale fala friulano, além do italiano.
Há uma velha lenda de que Átila passou direto por Andreis, porque uma neblina tinha escondido a aldeia da sua vista. É só uma lenda, mas é uma lenda delicada.
As casas de Andreis são de pedra, com galerias externas todas de madeira, chamadas daltz, com plataformas de madeira escura e escadas do lado de fora. A aldeia inteira é como um museu da antiga vida na montanha, ainda habitado.
E há também um museu de verdade. Desde 1981, o antigo prédio da prefeitura abriga um museu da vida rural. Aqui estão as matracas de Páscoa de madeira, chamadas craceles, que substituíam os sinos da igreja na Quinta-feira Santa. Aqui estão os tamancos de madeira, chamados palotes, alguns com cravos para andar no gelo, e sapatos de veludo preto, para os dias de festa. Há cestos de vime, ferramentas para a lã e para o leite, e as ferramentas do ferreiro e do lenhador. Andreis também tem suas comidas: um queijo salgado, bom com batatas, e um salame com cominho, chamado peta.
Mais acima no vale fica Barcis. Ela está numa larga bacia entre o Monte Longa, coberto de bosques, e o ensolarado Monte Lupo, dentro do parque natural das Dolomitas Friulanas. É uma aldeia muito pequena, de apenas umas duzentas pessoas.
Barcis é antiga. Sua igreja matriz já é citada num documento papal do fim do século doze, e naquela época o nome Barcis designava todo o baixo Val Cellina. Em 1327, a aldeia recebeu o direito a uma feira livre no dia de São Daniel.
A igreja paroquial de San Giovanni Battista é do fim do século dezesseis, e foi reformada mais tarde. Lá dentro há um altar de mármore e um afresco do banquete de Salomé.
O mais belo edifício antigo do vale é o Palazzo Centi, construído há cerca de quatrocentos anos. É feito de pedra rústica do lugar, com uma dupla loggia: arcos baixos e largos embaixo, e arcos redondos em cima. Ele une o estilo simples de montanha do Val Cellina à elegância de Veneza. Já foi hotel e restaurante, e hoje abriga a biblioteca e o posto de turismo. Atravessou incêndios, guerra e terremotos.
As casas de Barcis são de dois tipos: umas com galerias de madeira, e outras fechadas e maciças, como blocos. A aldeia pegou fogo em 1606, e durante a guerra, em 1944, boa parte dela foi queimada de novo.
Em volta de Barcis, antigamente se ceifavam os prados para o feno, entre os bosques de faias, e uma velha ponte de pedra ainda cruza o estreito desfiladeiro do Caltea. Na época veneziana, a madeira do alto vale descia boiando pelo Cellina, com a ajuda de pequenas barragens de troncos chamadas stue. E nas colinas acima de Polcenigo, o povo usava trenós para descer troncos e feno da montanha, e todo agosto uma corrida de trenós de feno ainda os relembra.
Entre as comidas do vale estão a polenta branca e a caça, uma linguiça de carne de ovelha chamada petuccia, e carne seca de camurça chamada brusaula. No verão, Barcis mantém suas festas: a Noite de São João, em vinte e três de junho, e uma festa do emigrante e do veranista. E nessas longas noites, quando a luz se demora nas montanhas, o vale parece muito longe da planície lá embaixo.
Mais acima no Val Cellina, depois de Barcis, o vale sobe rumo às aldeias de Claut, Cimolais e Erto. Lá em cima o vale era isolado, e havia pouca terra boa. E por isso, durante muito tempo, o povo do alto vale teve que buscar parte do seu sustento em outro lugar.
Alguns dos viajantes dessas aldeias eram mulheres. Elas eram chamadas de sedonere. Desciam a pé das montanhas até a planície, e seguiam até as cidades do norte da Itália, para vender coisas de madeira: colheres e conchas, e todo tipo de utensílios simples de cozinha.
Seu nome vinha do sedon, a colher de pau. Um dicionário friulano impresso em 1871 inclui a palavra sedon, colher, entre as palavras do dia a dia que chama de peculiaridades friulanas, muitas vezes impossíveis de traduzir.
As colheres eram feitas por artesãos locais, e as mulheres as levavam para vender. Algumas empurravam carrinhos com rodas de ferro pelas estradas. Outras levavam nas costas pesados baús de madeira, cheios de colheres e conchas.
Ficavam fora por semanas, e às vezes por meses. Andavam sob o sol e com mau tempo. À noite dormiam em palheiros ou em estábulos, ou na casa de uma família que lhes dava uma cama. Dizem que as vendedoras de colheres tinham um jargão secreto próprio, chamado dherbol, que um linguista chamado Ugo Pellis estudou nos anos 1930.
Esse comércio durou do fim do século dezenove até os anos 1950. Cresceu após a Primeira Guerra Mundial, e então, aos poucos, foi sumindo, com novas estradas, novos transportes e novas lojas.
O dinheiro que as mulheres traziam para casa sustentava suas famílias. E para muitas delas, era algo mais. Era o primeiro gostinho de independência: lidar com dinheiro, escolher seus próprios caminhos e tomar suas próprias decisões, longe de casa. Hoje, em Claut, um pequeno museu, o Museo della Casa Clautana, conta a história das mulheres do vale, e do caminho da sedonera, que em friulano se chama fora pal mont, mundo afora. Nos últimos anos, um filme registrou as memórias de algumas das últimas sedonere, mulheres com mais de noventa anos.
As mulheres do Val Cellina não foram as únicas a sair mundo afora. Das montanhas do Friul, havia muito tempo que as pessoas viajavam para trabalhar. Um livro sobre a emigração italiana, impresso em 1919, disse de forma simples: "Mais ao norte, no Friul, esteve a maior fonte da emigração temporária italiana." Durante muitos anos, dizia ele, um quarto de todos os italianos que iam trabalhar em outros países europeus vinha desta região.
Muitos eram homens com ofício: pedreiros e canteiros, ferreiros e carpinteiros, e trabalhadores dos fornos. O mesmo livro descrevia como podia começar a vida de trabalho de um menino. Ele começava nos fornos de tijolos, na Hungria talvez, ou na Alemanha. Depois carregava tijolos e argamassa para os pedreiros, e com o tempo se tornava ele mesmo pedreiro, trabalhando com cimento e estuque fino. No inverno voltava para casa, e alguns frequentavam escolas onde se ensinavam os detalhes mais finos da arte do pedreiro.
Operários italianos do estuque e do cimento levaram pisos de terrazzo à Silésia e à Saxônia, a Berlim e a Kiel, e a maioria voltava para casa no fim de cada temporada. Nas aldeias do sopé em torno de Sequals e Spilimbergo, o povo trabalhava havia séculos com terrazzo e mosaico, e tinha levado seu ofício para muito longe. Em janeiro de 1922, abriu-se em Spilimbergo uma escola para mosaicistas, com trinta e oito alunos.
Lá embaixo, ao pé das montanhas, um antigo livro sobre Sacile, impresso em 1868, contava cerca de duas mil pessoas por ano saindo de Polcenigo e Budoia. Ele diz: "as mulheres vão sobretudo a Veneza como criadas, amas de leite ou aguadeiras; os homens escolhem os ofícios de pedreiro, canteiro, servente, carregador ou serrador de tábuas." E então, conforme as estações giravam, muitos dos viajantes voltavam para casa, para suas aldeias, e para as pessoas que os tinham esperado.
Por quase quatrocentos anos, a maior parte do Friul pertenceu à República de Veneza. Seu lugar-tenente morava em Udine, e as velhas cidades e castelos da Patria mantinham seus conselhos e seus costumes. Mas no fim do século dezoito, uma grande tempestade varreu a Europa, e Veneza não conseguiu resistir a ela.
Em 1796, um general francês, Napoleão Bonaparte, chegou à Itália. Diante dele estavam os exércitos da Áustria. Veneza queria ficar neutra, mas não tinha defesas fortes o bastante para manter a guerra longe. Suas terras viraram campo de batalha para os dois exércitos.
Na primavera de 1797, os franceses atravessaram o Friul, e o largo leito de pedras do Tagliamento não os deteve. Avançaram rumo à Áustria, e em abril, perto de Leoben, na Estíria, foram assinados os primeiros termos de uma paz.
A própria Veneza já não tinha forças para lutar. Em doze de maio de 1797, o Grande Conselho da República votou por aceitar uma nova forma de governo, e a velha República chegou ao fim, depois de mais de mil anos. O último doge foi Lodovico Manin. Um historiador de Veneza, que escrevia em 1893, conta que, ao deixar de lado seu gorro ducal, o doge disse ao seu criado, com apenas meio pesar: "Pode levar; não vamos mais usá-lo."
Naquele outono, Bonaparte instalou seu quartel-general no Friul, na Villa Manin, em Passariano, perto de Codroipo. Era a grande casa de campo da família Manin, a família do último doge. Os enviados austríacos ficaram em Udine. E entre os dois, de setembro até outubro, as negociações avançavam devagar.
O secretário de Bonaparte, Bourrienne, estava com ele em Passariano, e anos depois escreveu o que lembrava. "Em treze de outubro, ao raiar do dia, ao abrir minha janela, avistei as montanhas cobertas de neve." Ele foi acordar o general, e lhe contou. Bonaparte pulou da cama e correu para a janela. O inverno estava chegando cedo, disse ele, e por isso precisavam fazer a paz.
O enviado austríaco, o conde Cobenzl, lutou muito por condições melhores. Há uma história famosa, provavelmente exagerada, de que numa reunião tempestuosa Bonaparte espatifou uma preciosa peça de porcelana. Um historiador posterior achou que ele só tinha derrubado um armário com um vaso caro, com seus gestos largos. E o próprio Bourrienne escreveu que não sabia de nenhuma cena assim.
O tratado foi assinado em dezessete de outubro de 1797. Ele leva o nome de Campo Formio, uma aldeia entre os dois acampamentos. Mas foi assinado, como conta a Villa Manin, na grande villa de Passariano, onde a sala do tratado ainda pode ser visitada hoje.
Por essa paz, a Áustria recebeu a cidade de Veneza e suas lagunas, e a terra firme veneziana, com o Friul, além da Ístria e da Dalmácia. A França ficou com as Ilhas Jônicas e a Bélgica. O primeiro artigo prometia uma paz sólida e inalterável, para sempre. E o imperador da Áustria deu de presente a Bonaparte seis magníficos cavalos brancos.
Nos anos seguintes, o Friul mudou de mãos mais de uma vez. Primeiro foi austríaco. A partir de 1805, passou a fazer parte do Reino da Itália de Napoleão, como departamento de Passariano, e o general Duroc, grão-marechal do palácio de Napoleão, levava o título de duque do Friul. Em 1815, todo o país voltou para a Áustria.
A pequena Polcenigo viu soldados irem e virem, primeiro os franceses, e depois os austríacos. Na primavera de 1809, Eugênio de Beauharnais, que governava a Itália para Napoleão como seu vice-rei, reuniu seus generais num palácio da aldeia, para planejar uma batalha perto de Sacile contra o arquiduque João da Áustria. A batalha foi vencida pelo arquiduque. E depois das guerras vieram anos difíceis, com colheitas ruins e impostos pesados.
A vida seguiu, como sempre segue. Os moinhos giravam no Gorgazzo, e os sinos tocavam sobre os campos. E na praça principal de Udine, foi erguida uma figura sentada da Paz, em memória do tratado de 1797.
Aquileia, como ouvimos, tinha passado aos Habsburgos no início do século dezesseis, enquanto a maior parte do Friul ficava com Veneza. Agora, depois das guerras de Napoleão, todo o Friul era austríaco. E em 1861, a oeste, foi proclamado um novo Reino da Itália.
Em 1866 houve guerra outra vez, entre a Áustria e a Itália. Naquele verão, um armistício assinado em Cormons fixou uma nova linha, ao longo da antiga fronteira do Reino Lombardo-Vêneto. E no outono, pela paz com a Áustria, o Vêneto, e com ele o Friul ocidental, passou a fazer parte da Itália. Em outubro o povo votou, e escolheu unir-se ao novo reino.
Assim, uma fronteira passou a cortar o Friul. No norte, ela seguia a alta crista dos Alpes Cárnicos. Na planície, seguia dois pequenos riachos, o Judrio e o Ausa, até o mar, logo a oeste de Grado. Udine e Pordenone, Polcenigo, Venzone e o Val Cellina agora estavam na Itália. Mas Aquileia ficou na Áustria, junto com Grado, Gorizia, Gradisca e Cervignano.
Os viajantes que vinham da Itália de trem cruzavam a fronteira em Cervignano. Um guia de viagem de 1913 disse de forma simples: "Cervignano, sede da alfândega austríaca, com fábricas de terracota e tecelagens, é a primeira aldeia do Litoral Austríaco." Outro guia dos mesmos anos, escrito para quem vinha no sentido contrário, de Trieste, chamava a mesmíssima estação de sede da alfândega italiana. Tudo dependia da direção da viagem.
De Cervignano, um pequeno ramal ferroviário descia pelos campos até Aquileia, e seguia até a beira da laguna, onde um barco a vapor esperava para levar os viajantes a Grado. Perto da linha ficava a aldeia de Monastero, com a fazenda modelo e os vinhedos de um barão, von Ritter-Zahony. E nas ilhotas da laguna ficavam as cabanas de pescadores chamadas casoni, feitas de junco, que pareciam, dizia o guia, coisa da pré-história.
A própria Aquileia era um lugar pobre e tranquilo. Tinha três hotéis, o Hotel de la Poste, com um pequeno jardim, o Città di Grado e o Aquila Nera, e o guia notava que eram bem italianos. A velha basílica tinha sido restaurada nos anos austríacos, em 1845 e 1846.
Também sob a Áustria, a busca pela cidade romana continuou. A partir de 1815, Gerolamo de Moschettini dirigiu escavações. Um primeiro museu, aberto em 1807, tinha recebido o nome de Eugênio de Beauharnais, que conhecemos em Polcenigo. E em 1873, a cidade abriu um museu próprio.
Então, em três de agosto de 1882, abriu o Museu Estatal Austríaco, fundado pelo imperador Francisco José, numa villa que tinha pertencido à família Cassis Faraone. Seu primeiro diretor foi Enrico Maionica, um arqueólogo de Trieste, que depois publicou um mapa dos achados. Os visitantes tocavam uma campainha para entrar. O guia de viagem de 1913 chamou o jardim do museu de encantador, com esculturas e urnas antigas "habilmente espalhadas entre os cedros, os ciprestes e as palmeiras". Lá dentro havia mais de duas mil inscrições, túmulos romanos que antes ladeavam as estradas fora das portas da cidade, e um relógio de sol romano com um pequeno indicador de vento.
Da própria cidade romana, só uma rua e um canto das muralhas tinham sido descobertos. O circo e o anfiteatro tinham sido cobertos de novo. E foi também nesses anos austríacos que o grande piso de mosaico de Teodoro veio à luz na basílica, como ouvimos bem antes esta noite.
Aquileia continuou austríaca até a Primeira Guerra Mundial. Em maio de 1915, soldados italianos cruzaram a velha fronteira em Cervignano, e depois da guerra Aquileia passou a fazer parte da Itália. E os dois pequenos riachos, o Judrio e o Ausa, voltaram a ser simples riachos, correndo tranquilos pelos campos até o mar.
Vamos voltar agora ao Val Cellina. Durante muito tempo, as aldeias do vale, Andreis, Barcis, Claut, Cimolais e Erto, não tinham estrada para carroças ou carruagens que subissem da planície. No século dezenove, cerca de dez mil pessoas viviam lá em cima. Para chegar até elas, havia só íngremes trilhas de montanha.
Entre o vale e a planície havia uma grande barreira: o desfiladeiro do Cellina. Ao longo de muitas eras, o rio tinha cavado um cânion profundo no calcário, entre Barcis e Montereale. É o maior desfiladeiro da região, e um dos mais impressionantes de toda a Itália. Suas paredes são polidas e escavadas pela água, e no seu leito há buracos redondos gastos na rocha, chamados marmitte. A água é cristalina.
No fim, a estrada veio por causa da eletricidade. Por volta da virada para o século vinte, engenheiros quiseram usar a força do Cellina. Construíram uma barragem dentro do desfiladeiro, hoje chamada de barragem velha, e um canal de uns sete quilômetros, escavado na encosta da ravina, para levar a água até uma usina em Malnisio. A abertura dos túneis começou no verão de 1900. Mais de duas mil pessoas, dizem, trabalharam ali durante cinco anos: mineiros e canteiros, pedreiros e carpinteiros, e mulheres que levavam cargas como carregadoras.
A usina de Malnisio ficou pronta em 1905. Era uma das maiores da Itália na época, e a primeira a levar eletricidade a Veneza. Também mandava energia para Treviso e para Udine. Um guia de viagem de 1913 anotou, perto de Pordenone, "a linha de alta tensão da companhia elétrica veneziana nas quedas do Cellina."
Para construir tudo isso, tinha sido aberta uma estrada de serviço dentro do desfiladeiro. A companhia elétrica não quis pagar para prolongá-la até Barcis. Então o engenheiro que tinha projetado as obras hidráulicas, Aristide Zenari, assumiu o trabalho, e as cidades e aldeias o pagaram. Em setembro de 1901, Barcis, Montereale, Pordenone e Aviano se uniram para construir a estrada, e os projetos foram feitos dois anos depois.
Em novembro de 1906, o próprio Zenari fez a primeira viagem de carruagem puxada por cavalos, de Montereale até Barcis. Imagine o som dos cascos ecoando nas paredes de rocha, e as rodas girando devagar, bem acima da água clara.
A estrada se estendia por uns dez quilômetros, de Montereale Valcellina até Molassa, perto de Barcis. Em longos trechos, corria acima do canal. Em alguns lugares, passava por túneis. Em outros, era uma saliência estreita cortada na rocha a pique, bem acima do fundo do desfiladeiro. Passava por cavernas, e uma delas se chamava Bus de la Volpe, a toca da raposa. Perto de Barcis, cruzava o pequeno riacho Molassa.
A estrada acabou com o longo isolamento do vale. Mas também facilitou a partida, e muita gente foi embora para trabalhar. Por volta de 1950, com a construção da barragem de Barcis, um trecho da estrada foi transferido mais para o alto.
Por mais de oitenta anos, o trânsito serpenteou pela beira do desfiladeiro. Então, em 1992, a velha estrada foi fechada e substituída por túneis modernos, o mais longo deles com quase quatro quilômetros.
Hoje o desfiladeiro está tranquilo de novo. Desde o fim dos anos 1990, é uma reserva natural, cuidada pelo parque das Dolomitas Friulanas, com um centro de visitantes em Ponte Antoi. Os animais ariscos se multiplicaram desde que as pessoas pararam de trabalhar ali, e plantas incomuns crescem em seus muitos cantos abrigados. O último trecho da velha estrada perto de Barcis pode ser percorrido a pé nos meses mais quentes, e uma ponte de cordas, com cerca de cinquenta e cinco metros, cruza o cânion. E a usina de Malnisio, que funcionou até 1988, é hoje um museu.
Depois da Primeira Guerra Mundial, a Itália tinha muitos soldados tombados que nunca tinham sido encontrados nem identificados. Em 1920, o coronel Giulio Douhet propôs que um soldado desconhecido fosse homenageado, em nome de todos eles. No ano seguinte, uma lei decidiu que ele seria sepultado em Roma em quatro de novembro de 1921, aniversário da vitória.
Uma comissão escolheu onze soldados de nome desconhecido, um de cada parte da longa frente. Vinham de lugares com nomes como Rovereto e Pasubio, Ortigara e Grappa, Cortina e Rombon, San Marco e Ermada. Nenhum deles levava nada que pudesse dizer quem tinha sido. E ninguém devia saber de que lugar cada um tinha vindo.
Os onze caixões, todos exatamente iguais, foram levados a Aquileia. Foram colocados na velha basílica, a igreja dos patriarcas, por onde já tinha passado tanto da longa história do Friul.
Na manhã de vinte e oito de outubro de 1921, às onze horas, velhos soldados que tinham sido feridos se reuniram na basílica, com mães e viúvas. Uma mãe ia escolher um único caixão, em nome de todas as mães.
Ela se chamava Maria Bergamas, e vinha de Gradisca, no Isonzo. Seu filho Antonio tinha nascido súdito austríaco, mas tinha passado para o outro lado para lutar pela Itália, com outro nome. Tinha tombado em junho de 1916, nas montanhas, e nunca foi encontrado.
No silêncio da basílica, Maria Bergamas parou diante de um dos caixões. Era o décimo. Dizem que ela se ajoelhou diante dele. Sua filha contou depois que ela o escolheu para que o soldado que iria a Roma fosse de fato desconhecido. O bispo Celso Costantini, que conduziu a cerimônia, escreveu sobre aquela manhã em seu diário.
O caixão escolhido foi posto numa caixa de carvalho, decorada com ferro forjado, com um capacete e um fuzil sobre a tampa, e foi coberto com a bandeira. Na manhã seguinte, às oito horas, deixou Aquileia num vagão ferroviário especial. O vagão trazia os anos da guerra, de 1915 a 1918, escritos em algarismos romanos.
O trem atravessou a Itália devagar, e parou em todas as estações. Pernoitou em Veneza, em Bolonha e em Arezzo. No Piave, as pessoas jogaram flores no rio. Ao longo de toda a linha, multidões se ajoelhavam à sua passagem.
Em Roma, o caixão repousou por um tempo na igreja de Santa Maria degli Angeli. E em quatro de novembro de 1921, o soldado desconhecido foi sepultado no grande monumento chamado Altar da Pátria, o Vittoriano.
Nesse mesmo dia, os outros dez foram sepultados em Aquileia, no cemitério atrás da abside da basílica. Ele se chama Cemitério dos Heróis. Alguns dos primeiros soldados italianos que tombaram no Carso também descansam ali.
Maria Bergamas viveu ainda muitos anos. Morreu em Trieste em dezembro de 1953. No novembro seguinte, foi levada a Aquileia, e sepultada no cemitério atrás da basílica, perto dos dez soldados desconhecidos.
Hoje eles descansam ali juntos, no silêncio atrás da velha igreja. Ao redor estão os campos de Aquileia, e sob esses campos dorme a cidade romana. As estações vêm e vão, verão e inverno, sobre a planície e a laguna. E o velho campanário vela por todos eles.
Logo abaixo de Barcis, num lugar chamado Ponte Antoi, o Cellina entra no desfiladeiro, entre altas paredes verticais de rocha. E aqui, no início dos anos 1950, ergueram uma barragem no rio.
É um arco de concreto, curvo em duas direções, projetado pelo engenheiro Carlo Semenza. Foi construído por uma grande companhia elétrica, a Sociedade Adriática de Eletricidade, e ficou pronto em 1954. Tem cerca de cinquenta metros de altura.
Houve antes um plano para uma barragem bem mais alta e um lago bem maior. Esse lago teria submergido a aldeia de Barcis, e suas casas teriam de ser reconstruídas mais acima nas encostas. No fim, a barragem foi feita mais baixa, e a aldeia ficou onde estava, nos seus terraços acima da água.
Atrás do novo muro, a água do Cellina se acumulou, e nasceu um lago. Ele cobre cerca de um quilômetro quadrado, a uns quatrocentos metros acima do mar. Sua água move as máquinas de uma usina escondida numa caverna perto da barragem velha, no desfiladeiro, e também irriga os campos da planície e abastece seus aquedutos.
Oficialmente, o lago tem outro nome. É o Lago Aprilis, em homenagem a Napoleone Aprilis, que dirigiu o consórcio que cuida das águas do Cellina e do Meduna. Mas a maioria das pessoas o chama simplesmente de lago de Barcis.
Sua cor é a primeira coisa que as pessoas notam. É um verde-esmeralda, entre o verde e o azul-claro, e muda ao longo de todo o dia, com a luz. Numa manhã sem vento, o céu repousa quieto sobre a água. Quando as nuvens descem sobre o Monte Lupo e o Monte Longa, o lago fica mais escuro, e mais suave.
A barragem e o lago, dizem, ajudaram a aldeia a se recuperar depois da guerra, e hoje Barcis vive em grande parte dos seus visitantes. Uma trilha dá a volta inteira no lago, sob abetos, passando por pequenos lugares de piquenique e por uma passarela num ponto chamado Fontane. O passeio todo tem uns cinco quilômetros e meio, e leva duas ou três horas, em ritmo tranquilo, de abril a novembro. Os visitantes podem até atravessar o alto da barragem a pé, com o lago de um lado e o fundo desfiladeiro do outro.
No verão, o lago ganha vida. Há pequenos veleiros, e windsurfistas, e caiaques. As pessoas pescam da margem, nadam e tomam sol. Um trenzinho turístico corre pela beira da água. E todo mês de junho, desde 1985, lanchas de corrida vêm ao lago para um campeonato italiano, e o vale ecoa com seus motores.
Mas na maior parte do tempo, Barcis é tranquila. O Palazzo Centi, com sua dupla loggia de pedra rústica do lugar, olha para a água, como olha para o vale há cerca de quatrocentos anos. Abaixo dele, o lago fica onde antes corria o rio, no fundo da bacia.
Se você se sentasse num banco junto à margem numa noite de verão, veria a luz deixando as montanhas, uma encosta de cada vez. A água passaria do verde ao prateado, e depois ao cinza. Acima dela, os arcos do Palazzo Centi pegariam o último sol. E as luzes da aldeia se acenderiam, uma a uma, nos terraços acima do lago.
Já passeamos por Venzone antes, dentro de suas muralhas duplas e na sua catedral de Santo André. Um guia de viagem de 1911 a chamou simplesmente de "uma pitoresca cidadezinha." Em 1965, foi declarada monumento nacional, a única cidade murada do século quatorze na região. Em 1976, cerca de setecentas pessoas viviam dentro de suas muralhas.
Na noite de seis de maio de 1976, pouco depois das nove, a terra tremeu no médio vale do Tagliamento. Mais de cem cidades e aldeias foram danificadas, e Gemona, Venzone e Osoppo estiveram entre as mais atingidas. Muitas vidas se perderam em todo o Friul, e muitas casas.
Em Venzone, parte da catedral desabou. Em treze de maio, um comitê levou para um lugar seguro as estátuas, as pinturas e o mobiliário da catedral. Durante o verão, especialistas da Itália e da Áustria fotografaram e mediram com muito cuidado a igreja danificada e a cidade. Mais tarde, essas imagens iriam guiar a reconstrução.
Naquele verão, muitas famílias viveram em barracas. Então, em quinze de setembro, vieram novos tremores fortes. A catedral, e boa parte da cidade já danificada, caíram quase por completo. No outono, muita gente se mudou por um tempo para hotéis na costa do Adriático, enquanto casas de madeira eram construídas para elas durante o inverno. Na tradição friulana, o terremoto é um monstro que vive sob as montanhas, e tem um nome: o Orcolat.
Agora começa a parte mais suave da história. Em vez de levar as ruínas embora, operários e voluntários as separaram. As pedras talhadas da catedral estavam, na maioria, só lascadas, não quebradas. Uma a uma, foram retiradas do entulho, registradas e guardadas.
O povo de Venzone queria sua cidade de volta, como era antes. No verão de 1977, a maioria dos habitantes assinou uma petição, pedindo uma reconstrução fiel à cidade antiga. E assim se decidiu reconstruir por anastilose. É uma palavra comprida para uma coisa simples: recolocar as pedras originais nos seus lugares originais.
A partir de 1982, mais de nove mil pedras foram numeradas e catalogadas. Cada uma recebeu um número ou um sinal, e elas foram dispostas em grandes pátios de pedra, como as peças de um enorme quebra-cabeça. As fotografias antigas ajudaram a achar o lugar de cada pedra. A obra na própria catedral começou em 1988.
Pedreiros do lugar fizeram o trabalho, e uma nova geração de artesãos aprendeu o ofício. O aço foi escondido dentro das paredes, para ajudá-las a resistir a futuros terremotos. Onde uma pedra se perdeu, uma nova, do mesmo tamanho e do mesmo tipo de pedra, ocupou o seu lugar. No fim, mais de nove em cada dez pedras voltaram para onde estavam. E as paredes que tinham resistido, tortas mas de pé, foram mantidas como estavam, para que as cicatrizes ainda possam ser vistas.
Durante a obra, os construtores encontraram algo escondido no piso da igreja mais antiga que antes ficava ali. Era um desenho de uma das extremidades da catedral, a fachada do seu transepto norte, com quase quatorze metros de largura, riscado na pedra por pedreiros do século quatorze. Por seiscentos anos, tinha esperado ali, sob seus pés.
O palácio municipal já estava reconstruído em 1984, e no fim dos anos 1980 a cidade antiga estava de pé outra vez. Em agosto de 1995, a catedral reabriu suas portas. Venzone foi reconstruída onde estava e como era, com suas cicatrizes à vista. Só uma ruína foi deixada de propósito: a fachada da antiga igreja de São João Batista, mantida como memorial.
Hoje, num palácio da cidade, um museu chamado Tiere Motus conta a história daqueles anos. Seu nome une uma palavra friulana, tiere, a terra, e uma palavra latina, motus, movimento. E lá fora, nas ruas, as velhas pedras repousam outra vez tranquilas em seus lugares, mornas ao sol da tarde.
A noite cai agora sobre o Friul. O longo dia terminou, e a luz vai se apagando, devagar, nas montanhas e na planície.
Em Aquileia, a laguna fica prateada, e depois cinza. O alto campanário se ergue contra o céu, como há quase mil anos. Sob os campos ao redor, a maior parte da cidade romana ainda dorme, nunca escavada. Em 1998, a velha cidade e sua basílica entraram na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. E atrás da abside, os dez soldados desconhecidos descansam, com Maria Bergamas perto deles.
Lá longe, ao norte, na porta nas montanhas, as muralhas de Venzone vão escurecendo. A catedral de Santo André se ergue tranquila dentro das muralhas, com suas velhas pedras de volta aos seus lugares, cada uma numerada um dia, e lembrada. Ao lado da cidade, o Tagliamento segue correndo pelo seu largo leito de pedras, como sempre.
Em Polcenigo, o Gorgazzo ainda corre pela aldeia, frio e claro, passando pelas velhas casas de pedra e madeira. Seu poço fundo ao pé da rocha vai perdendo o azul, e escurecendo. Um pouco adiante, na Santissima, o Livenza brota tranquilo de muitas pequenas nascentes ao mesmo tempo, e em poucas dezenas de metros já é um rio.
E em Barcis, no alto do Val Cellina, o lago esmeralda guarda a última luz do dia. A aldeia e o Palazzo Centi se refletem na água parada. No desfiladeiro abaixo da barragem, a velha estrada ainda se agarra à rocha, quieta agora no escuro.
Por todo o Friul, as luzes vão se acendendo. Nas casas rurais da planície, nas janelas das aldeias de montanha, em pequenas praças onde um sino anuncia o fim do dia. As estradas se esvaziam. Os rios seguem correndo, descendo das montanhas, rumo ao mar.
Esta noite viajamos muito, de uma aldeia de casas de madeira num pântano, há uns seis mil anos, até uma catedral reconstruída pedra por pedra. Conhecemos colonos romanos e patriarcas, mercadores e pedreiros, mulheres que desciam das montanhas com colheres de pau, e uma mãe numa velha basílica.
Não há nada que você precise lembrar. As histórias vão ficar guardadas, como pedras num muro antigo, ou como água descansando no fundo das montanhas, à espera de subir.
Então deixe a respiração ficar mais lenta, e deixe os olhos se fecharem. A laguna está quieta. As montanhas estão escuras. E em algum lugar, ao pé de uma parede de rocha, uma nascente brota, fria e clara, sob as estrelas.
Muito obrigado por passar esta longa noite comigo. Durma bem, e boa noite.
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